sábado, 21 de junho de 2008

Espaço Aberto para Zeca Junqueira


“Sejam realistas. Peçam o impossível!”

O jornal O Globo do dia 18/05 (domingo) dedicou nada menos que nove páginas do seu Segundo Caderno a falar de 1968, ano-chave da contracultura no mundo. Passaram-se 40 anos do ápice do movimento que queria derrubar o establishment a golpes de arte. Aonde chegamos? “A contestação já é parte do sistema, as pessoas não se reúnem mais, o mundo se globalizou, Deus está morto e salve-se quem puder”, responde lá o jornalista Toninho Vaz, autor das biografias de Torquato Neto (o Anjo Torto) e Paulo Leminsk (para o qual “morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma”).

Ao ler avidamente a matéria, lembrei de outra, “Sobriedade demais”, da colunista Martha Medeiros, publicada na Revista O Globo de 16/09/2007, que me surpreendeu então como uma alvissareira voz no meio do silêncio produzido pela falência de tantas utopias. O ano de 1968 esfumaçou-se, perdemos nossas convicções e a maioria de nós mudou o tom e é transmissora passiva de ruídos de coisas geladas, mecanizadas, chipadas, vazias de tudo para garantir a aceitação incontestável do reinado do bezerro de ouro. Essa maioria é composta de arautos do nada.

Martha cita oportunamente Hemingway, Bukowski, Dylan Thomas e cobra de si mesma o seu quinhão de desatino, o seu pileque por trás do texto, o LP arranhado soltando jazz de uma antiga vitrola enquanto uma velha e imaginária Remington substitui o computador e importuna tamborilando em voz alta o que é preciso tamborilar: dor, esperança, desespero, rebeldia, amor – arte!, e que se dane depois a ressaca, depois a gente acerta.

Sabiamente, Martha diz que está na hora de vasculharmos a cesta de papéis em busca do rascunho jogado fora só porque é rascunho - será que a vida rigorosamente passada a limpo não se traduz mesmo em rascunho, em aspereza, em intensidade proporcional ao sangue que ela contém? “Os escritores deste novo século já não se suicidam, a Sylvia Plath de hoje faz mamografia, a nova Ana Cristina Cesar faz pilates, o William Burroughs do século XXI precisa parar de beber por recomendação médica”, diz a colunista.
Esse súbito engasgo que Martha Medeiros sofre e nos repassa numa revista light de domingo, facilmente digerível com o familiar almoço do dia, me instiga botar a cara à mostra, já que “no meio desse quadro diluidor...há uma faixa de pessoas com fome de transcendência, porque a vida é pouca e nem todos agüentam o nu e o cru da falsa realidade dos reality shows”, como aponta o poeta Ferreira Gullar, em entrevista concedida ao Globo que fala de 1968.

Insurgir-se nesse “admirável mundo novo” e correr o alto risco de ser jogado como um rascunho pornográfico na lata de lixo da “arte” ou continuar fazendo mééééééé entre o grande rebanho de “artistas” pós-tudo enquanto o mundo desaba infecundo sobre nossas cabeças disciplinadas e vazias? Eis o dilema dos verdadeiros criadores postos “no paredão” pela assustadora capacidade de banalização da sociedade do espetáculo.
Que saudade de 1968, 1969, 1970!...
Segue o meu manifesto (atualíssimo!) pela passagem dos 40 anos daquela data, quando os hippies e a nossa geração do desbunde ousaram colocar a imaginação no poder.
Make love, not war.

Arte é rebelião e gozo
A arte é essencialmente transgressora e seu principal atributo
é promover o inconformismo e a não-aceitação de injustiças.
Arte é anti-ambiente, é releitura e reescritura do mundo,
inclusive no plano social.
A experiência da arte é a experiência da beleza e a beleza
liberta e traz descanso.
A arte não é moralista, é ética, portanto intuitiva, e
só pode ser provada por homens verdadeiramente livres.
Os que estão aprisionados e pela arte são tocados
passam a enxergar as grades e os muros que os cerceiam e
contra eles põem-se a obrar.
A arte exposta nos museus oficiais para a morna gente
mais preocupada com os costumes do que com a liberdade,
mais ciosa com a moralidade do que com a dignidade,
estaria mais adequada e surtiria mais efeito nos corredores
das penitenciárias, nos prostíbulos e
nos guetos onde a miséria, a loucura e o crime
não têm contraponto.
Van Gogh no túnel escuro e sem esperança das prisões
seria janela ensolarada por onde fugiriam todos os olhares.
Ao amanhecer e ao anoitecer, todas as prisões do mundo
deveriam tocar Mozart, Mahler, Beethoven para aliviar
as mentes atormentadas.
Pela música, os corpos continuariam com os carcereiros,
as almas, com a paz.
Nas igrejas não deveria haver santos de conveniência
mudos nos altares, mas poetas em carne e osso
bradando poesia no lugar da cantilena dos padres.
E nos hospitais, nos tribunais, em todas as casas de
punições e dores
a bondade, suprema obra de arte,
deveria estar sendo escrita, pintada e orquestrada,
exercida sem parar em todas as cores, letras e sons.
O verdadeiro artista caminha descalço sobre brasas e
delas só escapa para prosseguir sobre o fio da navalha
- sempre descalço.
A arte não é propriedade de ninguém e
só existe como rebelião e gozo.
O resto é rendição e conformismo.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Crônica: A morte do Zé Sarney


O anúncio no rádio ficou por minha conta: “Comunicamos com pesar o falecimento de Ivo Pereira Barbosa, cujo sepultamento se dará hoje, dia 04 de junho de 2008, às 15 horas, no cemitério de Dona Euzébia. O féretro sairá da capela mortuária daquela cidade. A família enlutada agradece a sua presença e solidariedade”.

Tive que incluir no texto o apelido do finado: Zé Sarney. Os possíveis ouvintes da emissora jamais poderiam saber a quem se referia a Nota de Falecimento, se lá constasse apenas o nome de pia.

Ivo, o nosso Sarney, levava essa alcunha porque tinha um bigode parecido com o do senador lá de Brasília; daqueles que partem das ventas e quase lambem a borda do queixo. Foi também um contador de histórias, dono de uma prosa onde predominava o patético, do nascer ao desaguar no nosso imaginário.

Mas não veio do Maranhão, nunca passou por perto de um Congresso ou Academia de Letras e tampouco sabia lá o que vem a ser um clã nordestino. Excluído, jamais chegaria a Presidente da República! Nunca enricou e diferente do que ocorrerá com o político, morreu sozinho no pronto socorro municipal; sua família não mereceu do Estado nem mesmo uma informação mais respeitosa sobre o que motivou a sua morte - na Certidão de Óbito consta apenas que faleceu em conseqüência de “Causa Indeterminada”. Indignação!

Nasceu na cidade de Manhuaçu há cinqüenta e um anos atrás, filho de João Pereira Barbosa e Alícia da Silva Barbosa. Passou boa parte de sua existência em Dona Euzébia. Lá, mantinha alguns familiares e um amigo carroceiro de apelido engraçado: Pandareco. De lá guardava boas e más lembranças. Entre as boas, falava das festas de casamento que freqüentava ainda na juventude; já a recordação da perda da casa onde morava mexia nos seus nervos e anuviava-lhe os olhos. Para lá voltou carregado ao reencontro com a mãe, de quem confessava sentir muita saudade. Seu pai, também falecido, era viajante.

Há um bom tempo morava em Cataguases. Costumava marcar presença nas rodas de conversa dos taxistas, funcionários de sacolões e frentistas dos postos de gasolina. Amigo e assessor do José Almir, programador musical da feira de artesanato, gastava lá as suas manhãs de domingo. O conterrâneo, Ildeu, era seu porto seguro, dele recebia e considerava bons conselhos.
Com a sua parca renda de aposentado pelo INSS, conseguiu organizar com gosto sua casa: dependurou na parede da sala alguns quadros primitivos, esticou tapete no chão e comprou um potente aparelho de som. Na estante, ostentava orgulhoso uma montagem fotográfica onde aparece em meio corpo portando a faixa presidencial! Compartilhava a audição de suas músicas sertanejas e românticas com os vizinhos e os passantes do final da Avenida Astolfo Dutra, onde morava. Vivia sozinho, mas vaidoso.

Caminhou comigo até a última primavera, ocasião em que revelou acreditar na sua popularidade e admiração pública. Previa inocente e engraçado no trocar das pernas: “Quando eu morrer, Cataguases vai decretar feriado nacional”!

Às vezes, dialogava com criaturas que nós, seres normais e adaptados à vida presente, não conseguíamos vislumbrar. Gostava de chuva - por várias vezes o flagrei falando sozinho, na porta de casa, apontando o dedo para o sol poente; chamava as águas que na curva do céu, ainda nuvens, apareciam-lhe feito “rabos de galo”.

Por razões que fogem ao nosso entendimento, deixou tudo de lado para enfrentar o que dizia temer: a morte. Decidido, Jejuou do arroz-com-feijão e por muitos dias limitou seu alimento ao extrato de cevada e lúpulo. Vagou desvairado pela cidade. Na tontura de suas horas, desconsiderou os limites do corpo, como se um espírito atormentado não precisasse também de um “cavalo” pra se manifestar!

Perdeu a batalha no último três de junho, terça-feira. Embora fosse conhecido, o féretro foi acompanhado por não mais do que vinte pessoas. Imagino que muitos, ao tomarem conhecimento de seu passamento se apiedaram. Outros, como bem disse o poeta Manuel Bandeira, “estavam todos voltados para a vida, absortos na vida, confiantes na vida” e não se deram conta da fatalidade.

Nas últimas palavras, dou o testemunho da retidão e honestidade do meu amigo. Ivo tinha nome limpo na praça, fazia questão de pagar em dia as suas contas. A propósito, antes de entrar em agonia, enviou-me, através de sua irmã, certa quantia para que em seu nome eu liquidasse uma prestação numa grande loja. Com a pressão em queda livre, partiu.

Não paguei o carnê. Devolvi o dinheiro à família enlutada e às voltas com as despesas do funeral. Que seus pretensos credores, se tiverem coragem e o Código de Endereçamento Postal, encaminhem cartinhas de cobrança ao Paraíso, aos cuidados de Deus. O endereço é Rua dos Pobres pelo Espírito, onde Zé Sarney, liberto, foi ser feliz.

domingo, 4 de maio de 2008

Espaço Aberto para Emanuel Medeiros

(Abrimos espaço para o poeta Emanuel Medeiros. O homem é de Florianópolis, mas morou por 10 anos em Porto Alegre, onde fundou cine-clubes e grêmios literários no antigo secundário e na universidade - UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Participou ativamente da luta política no Movimento Estudantil Universitário. Amargou a passagem pelo " inferno na Oban e no Dops". Mas não se dobrou. Hoje, continua seu trabalho em favor da vida e tenta conhecer um pouco do coração do homem. Considera-se um "Mascate Cultural". Ao poema!Pequeno)

DESTERRO *
Desterro cumpriu-me
e cumpriu-se.

O rio começava atrás de casa
(como eu),
e foi embora – afluentes.
Vento sul, Campo do Manejo, Rita
Maria, Rio da Avenida, Miramar,
bala queimada, Catecipes, Praia do Muller,
procissão do Senhor Morto, Cine Rox,
gibis, Grupo Escolar Dias Velho,
Chico Barriga D’Água, paixão camuflada pela menina
da Rua de Cima – ela nunca soube.)
Só enuncio: acumulo – sobrecarregado.

O rio foi embora.
Casa demolida, mãe na soleira da porta, pitanga no
quintal, regata na Baía Sul, matracas, turíbulos, trapiche da
Praia de Fora, gaita-de-boca, groselha, tainha frita,
fogão de lenha, beliches, pé de amora.

Perdeu-se o rio: não sei do seu delta.
Perdi-me: tiro certeiro na gaivota.
A rua pequena, era a maior do mundo – coração.

Desterro inunda-me:
outrora/agora.

* Nome antigo de Florianópolis-SC

segunda-feira, 24 de março de 2008

Procurando o Moreninho

“O chicote é a figura da deformidade
e o cativeiro deforma o homem. “ ( * )

Na última sexta-feira, dia 21, estivemos comemorando o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. A data foi instituida pela ONU devido ao Massacre de Sharpeville, na África do Sul, em 21 de Março de 1960. Veio daí a idéia dessa crônica.
Se a protagonista do fato que vou contar morasse na Bahia, certamente, seriam outras as minhas palavras; possivelmente estaria aqui escrevendo sobre música, dança e alegria.. Como diria Caetano: “Negro é lindo!”. Os baianos saíram na frente, assumindo a sua negritude. Vão, aos poucos, consumando uma nova realidade social, livre do preconceito e do racismo. Extinguem assim a idéia de “Cor da Alma”.
Fizeram mais: assumiram – corretamente - a cultura como um valor libertário. Cantar, rir e dançar, libertam e excluem qualquer necessidade de turra, cara feia ou violência. Na Bahia, as notas musicais que constroem melodias e harmonias embalam também o movimento do corpo; a liberdade é a consequência natural do desprendimento, do bom humor e bem-estar coletivo. Ser racista e preconceituoso na terra de Painho e Mainha é feio que dói!
Mas a nossa personagem não pensa assim. Carrega na carcaça e no imaginário o peso dos quase quatrocentos anos do jugo da escravidão, essa prática abjeta que permeou a vida brasileira ao longo do período colonial, avançando até o final do império português.
Não sei o nome de nossa artista, nunca a tinha visto. Estive perto dela apenas alguns minutos, tempo suficiente para colher o material com o qual alinhavo este texto. Mas já sei que se trata de uma alma ingênua, vítima da nossa história de opressão. Uma alma gestada sob o signo da dominação branca, que só consegue reconhecer a presença de Deus na alvura das coisas, como se Deus tivesse cor, como se Deus fosse o protótipo ou representante dos homens que dominam.
O que narro a seguir, servirá de exemplo prático para ilustrar muito do que expus até aqui, abusando de sua paciência.
Duas horas da tarde na tórrida Cataguases. Rita Bento, militante do Movimento Negro, e eu, aproveitávamos a sombra num dos bancos de Santa Rita de Cassia. Falávamos de amenidades, das muitas mentiras e algumas relativas verdades da política, quando fomos abordados por uma “mulata”, ela mesma, a nossa artista:
- Eu estou procurando o Dagoberto... é um cara que trabalha com fulano de tal, é segurança...
Rita Bento ainda franzia o sobrolho na tentativa de buscar na memória a figura pretendida pela mulher, quando ouviu:
- É um moreninho que nem você, moça!
Aguerrida militante, digna de Zumbi dos Palmares, percebendo a fragilidade daquela alma, Rita redarguiu, questionando com certa dureza:
- Epa, e quem é que lhe falou que eu sou moreninha? Eu sou é negra, minha filha!
Mas nossa personagem, compassiva, não entendeu o discurso da lutadora:
- Não fale assim, você não é negra!
- É claro que eu sou negra, olha aqui a cor da minha pele, você tem problema de visão? Sou negra com muito orgulho. N E G R A!, e do Movimento... das bonitas, vê!? Se você não sabe, negros somos todos nós que viemos da África.
A “mulata” não entendeu muito a lição de consciência étnica da Rita Bento e ao tentar se retratar, piorou ainda mais a situação de constrangimento:
- É mesmo, né gente?, tem muito branco que não come no prato que o negro come!
Rita, já escaldada com a visão preconceituosa das pessoas e com consciência da realidade histórica que vivemos, relevou com humor:
- Procura a sua informação no Almoxarifado da Prefeitura. Fica no final da avenida... na boca do Léo. Lá eles conhecem todo mundo, inclusive os moreninhos!

* Trecho do discurso de Basílio Machado, proferido em 1885, para homenagear José Bonifácio.


segunda-feira, 17 de março de 2008

Resenha Luiz Lopez


(O artista plástico e professor Luiz Lopez apresenta a sua visão sobre o meu livro Ilha do Horizonte, a ser lançado em julho.)

O Pescador de Pérolas

Em “Ilha do Horizonte”, novo livro de Vanderlei Pequeno, o autor pesca crônicas no horizonte da memória, plenas de humor, saudosismo, lirismo, paixão, dor, política, crítica social, empatia com os desvalidos e com os antigos craques da bola; enfim, histórias que constroem uma rede de ocorrências locais dessa ilha, na verdade, microcosmo, chamada Cataguases, a qual povoa seu horizonte de escritor, e que nos permite uma analogia panorâmica com o Brasil.
Que cidade não teve ou tem seus personagens pitorescos que moram no imaginário de seus habitantes? Que povoado não guarda suas histórias engraçadas, ou comoventes, seus tipos, os quais desafiam as normas estabelecidas? Quem nunca ouviu falar dos “boleiros”, hoje esquecidos e abandonados, a driblar sua vida miúda, num mundo cada vez mais desumanizado?
Pois Vanderlei Pequeno, cronista cataguasense, apanha essas e outras prosas, resgatando a cor local, deixando-nos o testemunho de um tempo, de situações e pessoas comuns, para nosso conhecimento e deleite. Dono de uma linguagem fluente, simples como a água do rio que circunda sua ilha, nem por isso simplista; porém, sem descuidar dos diálogos intertextuais, com referências a filósofos, educadores, músicos, escritores e poetas que enriquecem sua escrita, como se o autor nos fizesse um convite para navegarmos também em outras águas – no oceano das obras dos mestres, sempre prontas a alargar nossa visão de mundo.
O escritor está continuamente guiando-nos em sua pescaria de casos na Ilha do Horizonte. E podem estar certos de que, na companhia desse pescador-de-pérolas, a rede de acontecimentos e situações estará sempre cheia, deixando viva na nossa memória a imagem dos que teceram e tecem seus dias nesse emaranhado de fios-fatos que forma a complexa cadeia de nossas vidas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Ilha do Horizonte

(No próximo mês de abril eu vou estar lançando um novo livro que vai se chamar Ilha do Horizonte. O Zeca Junqueira leu os originais e cometeu a gentileza de escrever essa belíssima matéria sobre o trabalho. Compartilho contigo. Um abraço.Pequeno)

Como um menino

Extra! Extra! Extra! Vem aí o novo livro do craque Vanderlei Pequeno: Ilha do Horizonte. Mais uma vez vamos mergulhar num universo de simplicidade e graça, e por que não?, de lágrimas para os mais saudosistas; mas anotem aí, lágrimas das boas, daquelas que lavam e refrescam a alma.
Eu li os originais do livro, que me conduziram numa espécie de caminho de volta pra casa, varando o tempo e o esquecimento, até àquela rua mineira da minha infância, até hoje rua do esperto do Vanderlei Pequeno.
Conheci as duas Marias e a Luísa da sua crônica, elas também povoaram a minha meninice. E como não podia deixar de ser, eu fazia parada obrigatória na Papelaria Real, e como o Vanderlei Pequeno, ficava por lá ouvindo os discos mais novos das paradas de sucesso, tirando uma casquinha do som, enquanto conversava com o Bastião, que num carnaval daqueles, muito doido e animado, mas já sem dinheiro, trocou uma camisa do flamengo que vestia como fantasia por uma última pinga na Taberna do Embalo. E lá se foi sambando pela Praça Rui Barbosa.
Quanto ao Cine Machado, meu Deus!, tão bem retratado na sua crônica “Nas matinês do cinema do Nelo”, o que dizer sobre ele? Ainda há tempo para um filme qualquer de amor ou de aventura, para um beijo na namorada com trilha sonora (quem sabe Tema de Lara), ainda há algum ingresso sobrando para nós ou alguém disposto a negociar conosco uma entrada meio atrasada para uma última sessão de cinema? Não, não há, que pena, a censura velada desse mundo coisificado nos bloqueou de vez.
Mas sai fora, xô!, nada de tristeza que Vanderlei Pequeno não é disso! Brincando com nossa emoção, ele escreve como um menino, sem medo da simplicidade, do riso fácil, da gargalhada solta. As suas palavras não estão “abandonadas, escorregando pelas paredes, soltas no inferno, esquecidas, caindo na noite”, como as de sofridos poetas: elas estão soltas e nos levam pela mão para a luz do dia, para os campos de futebol, para as matinês, para os quintais (quando ainda os havia), elas nos levam para o lúdico. Ah!, Vanderlei, quem me dera que a sua fosse também a minha escrita, que sejam minhas as suas palavras, que mesmo quando falam sobre perda, como a morte de sua mãe, acabam desembocando mesmo é na vida: “minha mãe, dona Conceição, que, por coincidência (?), está sepultada em jazigo situado em frente ao de sua terna Comadre e amiga. Enfim, vizinhas para sempre”.
Ilha do Horizonte forma uma trilogia com 50 Causos do Futebol e Casos e Acasos, livros que guardo em minha estante junto aos que me são mais caros. A Casa da Rua Alferes e Outras Crônicas, que ele divide com os bambas Zé Antônio Pereira, Toquinho e Zé Vecchi, também está lá, todos a postos, como antídotos contra a adultice. De vez em quando constato: outrora, em algum lugar, a vida correu solta enquanto retumbavam hinos. Já abri espaço lá para o novo livro do Vanderlei Pequeno.
Meu caro Pequeno, já se vai tempo, nós nos conhecemos há quase 50 anos. Então eu te peço: continue brincando com as letras como os meninos brincam com a bola, continue nos lembrando que escrever não é sinônimo de sofrer, como muitos acreditam, continue a nos chamar em voz alta à nossa porta (lembra-se?) como você fazia quando era criança nos convocando para as brincadeiras. Prometo que eu continuo atendendo ao seu chamado.
Te devo uma por esse novo livro, que aguardo com dedicatória e tudo.
Um grande abraço, escritor.

Zeca Junqueira, Rio, 14/02/2008

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Três histórias

Para começar o ano de uma forma descontraída em sua companhia, conto, a seguir, alguns casos que andei recolhendo ao longo do vai-e-volta de minhas andanças por esse mundo de Deus.
São três episódios que denunciam o uso indevido da nossa língua; exemplos de mau uso das palavras e formulação de frases que deságuam em desfechos curiosos e engraçados.
Esclareço: não é meu intuito diminuir ou fazer juízo de quem quer que seja. Os personagens aqui são todos fictícios e essas linhas são pura invenção de mentes criativas e bem-humoradas, das tantas que existem neste nosso país.
Aproveite as férias, viaje comigo pelo imaginário popular do brasileiro. Aqui eu procuro revelar alguma coisa da face ingênua e singular de nossa gente que só mesmo através da oralidade pode vir a lume. Vamos lá:

Verborragia

A língua portuguesa é riquíssima e nos oferece amplas possibilidades de expressão do nosso pensamento, da nossa mensagem. Uns se expressam através da literatura, outros através do cinema, do teatro, da televisão e outros trabalham com o rádio, até hoje, um dos maiores veículos de comunicação existente. E foi exatamente numa locução esportiva que um radialista mineiro exagerou na tentativa de informar ao público que o gramado não reunia condições de receber aquela partida de futebol:
-Meus amigos, choveu muito esta tarde e o gramado está praticamente impraticável para a prática do futebol.

Assinatura não confere

Sebastião Jorge Pinto Ferreira da Silva, nome de pia, perigoso demais pra dar personalidade àquele caboclo lá da cidade de Inaraug, no estado de Minas Gerais. Era tudo muito complicado, já que Sebastião mal se dera conta da existência das primeiras letras através das lições dadas pela comadre de seu pai, sua madrinha, ainda na infância. Depois disso, agarrou na enxada, onde ganhou a duras penas sua vidinha de homem do campo. Agora estava aposentado e morava no perímetro urbano. Nada mais.
Mas dava pra levar, até porque sua mulher, Felizbina, fazia jus ao nome que lembrava felicidade, acumulando algum rendimento com a costura para meninos e meninas. Mulher trabalhadora, conseguiu também, depois de muita luta, papelada pra-lá-e-pra-cá, um Beneficio da Previdência Social. Juntando tudo, dava até pra ter uma continha no Banco do Brasil, com direito a retirar talão de cheques. Claro, o titular da conta era o marido, Sebastião, já que negócio em banco, na época, ainda era assunto só pra homem. Mulher só na cozinha... ou então na máquina de costura.
Aliás, mulher servia também pra levar-trazer recado e tirar dinheiro no banco pro marido. Mas podia dar problema, gerar muita gargalhada nas rodinhas de praça e botequins na cidade e até virar Caso, vindo parar na página do jornal Cataguases, muitos anos depois, em 2008.
Sebastião, com muita dificuldade, escreveu um cheque de cinqüenta cruzeiros e pediu à esposa que fosse ao banco tirar o dinheiro. Era para pagar umas continhas da casa e deixar de reserva alguns trocadinhos pro fumo de rolo, palha, uma ou outra água-de-cana, coisinhas básicas. Felizbina, obediente, chegou ao caixa, mas teve o cheque devolvido pelo bancário, pois a assinatura não conferia; ela deveria pedir ao marido que assinasse da forma que constava no Cartão de Autógrafos da agência.
A mulher, que perdera boa parte da audição por conta dos anos de zic-zic da máquina de costura, imaginava que todos à sua volta eram também surdos e por isso falava muito alto:
É só na escrita do nome?, perguntou gritando. O bancário disse que sim e Feliz saiu à busca do marido para corrigir o erro. Demorou mais de duas horas para voltar, embora morasse bem perto da praça onde estava o banco. Com a agência quase fechando e lotada de clientes, bancários e usuários, entrou apavorada e falando alto:
- Nós custamos a ver o erro no cheque. Você devia ter me avisado que o Tião esqueceu de botar o Pinto lá atrás!

Na Cabeça

Partida rolando quente entre o Ribeiro Junqueira, de Leopoldina e o Ideal, da cidade de Recreio. Jogo no campo do Ribeiro. Destacados pela emissora local para fazer a cobertura, como narrador, o distraído e ansioso Gerson Costa, e como repórter de campo, Roberto Nairibe, um famoso radialista, conhecido por não perder nenhum lance, dentro ou fora das quatro linhas. Os trabalhos de radiodifusão tinham naquela tarde o patrocínio de uma famosa marca de cerveja que aqui nomino Arctica!
É muito comum nas transmissões do interior do país que os profissionais aproveitem todos os momentos possíveis para a veiculação de mensagens comerciais, gravadas, ou ao vivo. As gravadas são rodadas antes do início da partida, no intervalo entre os dois tempos e após o final do embate. Para veicular os comerciais ao vivo, o narrador e os repórteres destacados, aproveitam as saídas de bola, um córner, os momentos que antecedem a cobrança de uma falta, ou, como dizem alguns profissionais mais intelectualizados, os “hiatos” do jogo.
Mas esta sensacional tirada não se deu em nenhum desses momentos. A bola estava rolando plena no meio do campo quando o narrador Gerson Costa observou que o goleiro do Ideal estava caído, sem que o Juiz se desse conta de qualquer incidente. Havia acontecido alguma coisa, alguma agressão ao goleiro, mas fora do lance da bola.
Imediatamente, Gerson pediu informações a Roberto, do que havia ocorrido. Roberto informou que um irresponsável torcedor do Ribeiro Junqueira que estava atrás da meta do arqueiro o atingiu com uma garrafa na cabeça. O goleiro ferido sangrava muito e poderia, por conseqüência da ferida e do sol escaldante da tarde, ter uma convulsão.
Mas Celso não considerando nada disso, não perdeu tempo, aproveitou o episódio para faturar um comercialzinho:
-Tomara que seja da cerveja Arctica, deliciosa, refrescante, até passarim bebe!