sábado, 17 de julho de 2010

Um poema - Idalina de Carvalho


SUSSURROS
Querer-me coesa, conexa, é
desconsiderar o mistério do meu feminino,
a poesia que habita em mim.

Sou caos, da lua a oculta face
derramando olhar caricioso
sobre ti.

Corpo, coração, o que carrega
essa fluidez, essa magia,
essa luz que atravessa o silêncio
que eu sou?

Incógnita presença
contraditória, transcendente
e inexplicável presença
a arrancar-te sussurros
Quer conhecer outros textos de Idalina Carvalho: entre no blog http://www.idalinacarvalho.blogspot.com/

terça-feira, 15 de junho de 2010

Um Poema - Fernando Abritta







Canto zero

No meio do vale
uma árvore
só

beirando a estrada
cercada
de capim
braquiária invasora
a árvore
resiste

umárvore
sentinela plantada
cavalgando ventos
barrando águas
tempestades
florindo
frutificando
semeando

No meio do vale
umárvore
guerreira avançada

ao fundo
nas grotas
nas dobras dos morros
muitas outras
apertadas
disputando sol e solo
contidas
por
arame farpado foices e fogo
esperam
olhando o vale
os bois
a erva invasora
cobiçando


Umárvore
parada plantada
enraizada
insiste na florada
cada fruto uma arma
sementes soldados
: largar raízes
teimando tentando dementes insistentes


No meio do vale
umárvore
r existe.

Poema tema do livro umÁrvore a ser lançado pela Lei Murilo Mendes – lei de incentivo a cultura do município de Juiz de Fora, em setembro de 2010.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Um Poema - Emanuel Medeiros ( * )


HIROSHIMA



Na manhã dominical,
a bomba de Hiroshima,
a bomba,
tão clara,
exata,
cirúrgica.

Bomba geométrica,
certeira.

A bomba vem do céu,
mas não é ave.

A bomba vem de cima,
mas não é Deus.

Desce fumegante,
a bomba não negocia,
a bomba não conversa,
célere, impositiva,
acerta o alvo, cai,
a bomba queima, a bomba dissolve,
a bomba dilacera.

Alguém nasce no ano em que ela cai,
e pensa naquele 1945:
a surpresa daqueles milhares de olhos,
à espera do lúdico no matinal domingo,
parques, igrejas, passeios, visitas familiares,
percebendo – sem tempo para a reflexão –
a chegada da não-ave,
emissária de Tanatos,
que cai, cai,
na paisagem limpa (cogumelos atômicos).

(* ) Poeta Catarinense morando, atualmente, na Bahia. Autor de vários livros, entre eles "Olhos Azuis - Ao sul do Efêmero". Contato metonia55@hotmail.com

terça-feira, 1 de junho de 2010

Um poema - Emerson Teixeira Cardoso


Estância nº 1

Bastou a indecisão de uma vírgula
para que se perdesse o elo entre as palavras,
e aí, por séculos e séculos,
só se ouviu o tique-taque nervoso de meu relógio.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Um poema - Zeca Junqueira


make love, bicho


Não quero o poema
quero a vida como ela era
quero de volta as manhãs e as noites
e a primavera.

Não quero saber dos best-sellers
com suas verdades ignoradas pelas estrelas
- e pelas minhocas.

Não quero os filósofos
não aceito trocar o sabor do doce
pela sua receita
barganho os circunspectos explicadores

- todos eles!

Pelos lunáticos, pelas benzedeiras
e pelos que não sabem das letras
mas sabem do vento e da chuva boa

– e das boas-novas.

Não quero a chuva ácida
não prevista pelos lunáticos.

Não quero cinema enlatado em dvd
arranjem-me ingresso para as matinês de domingo
com todos os vilões restritos à tela

O mundo é fraterno!

Após o the end, rumar para casa comendo pipoca
com picolé de côco comprado na carrocinha
sujando luxuosamente a camisa.

Quero ir à missa para tapear deus
com um caprichado sinal da cruz e
ficar azarando as moças
mas não quero a pornografia:

Sirvam-me a saliência de mestre zéfiro
quero a (re) descoberta, a transgressão e
o gosto das coisas proibidas.

Quero deletar o fotoshop e
ver de novo as mulheres
escandalosamente nuas.

Quero que o meu silêncio no banheiro
seja interrrompido pelas batidas de minha avó
na porta – que qui cê ta fazendo aí, moleque?!

- Quero o susto.

Quero ouvir os beatles em primeiro lugar nas
paradas de sucesso – os stones em segundo, vá lá. e

Make love, bicho, not war.

Na camisa branca quero as flores de “hair”
(por um mundo melhor)

Quero topar na rua com os bichos-grilo
com os Hare Krishna

Hare, hare, hare,

Quero desbundar em londres
Pirar em Woodstock
Pecar em altamont
Ver Gil em wight.

Oh!, my lord / my sweet lord...

Quero ouvir lp com chiado
Quero ver tv preto e branco
Quero que o google se foda
Que a internet se lasque

Que os celulares explodam
Que o consumismo se coma.

Onde há arte no mundo?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Um Poema - Ronaldo Cagiano

-
ÚLTIMO POEMA PARA ISABELA NARDONI

A morte chegou pelo elevador
e, num março enfumaçado,
com seus guantes de aço
e suas garras de bile
colheu-te na imensidão ferruginosa
das sombras.
Com o avassaladora condenação das Parcas
- apartada toda a misericórdia -
a deselegância furibunda de um Talião
irrompeu atônita
enquanto calçavas as meias de seda
de seus sonhos.

Feito Dâmocles,
a Inolvidável chegou intimorata
empunhando a espada assassina
que teceu a noite definitiva
sem defesa ou recursos.

Apareceu do nada
(ou foi ruminada no pântano escabroso de um monstro?)
e como um decreto inclemente de Cambises
sentenciou sua injustiça manifesta

Sem luva nas mãos
sem identidade
mas frenética e irredutível
seus olhos arregalados e frios de fera enjaulada
interditaram os anjos da menina
decepando a haste frágil
de um jardim
onde dormitavam bonecas e velocípedes.

Indesejada e inexorável,
cruzou o Letes
com a velocidade desumana e cangaceira
de um zéfiro

veio para ti
pelas mãos de uma imerecida paternidade
navegando no rio ácido de um sangue
que não é doce como o seu.

Ela não se escondeu de você
pequena flor arrancada a contragosto
do inefável canteiro de pérolas,
mas ao brotar de um jardim sinistro
e cavalgando o dorso do horror
fechou-te as pálpebras
numa enxurrada fúnebre
lançando-te no vale de ossos
no exílio da pátria de jazigos.

Testemunha do silêncio e da lonjura dos dias,
experimentas o compulsório breu
do invisível
que se debruçou tão cedo
sobre o seu calendário imberbe.

Habitante do etéreo,
pesa sobre teus olhos frágeis
o chumbo de uma noite imprevisível
e a bomba alucinada e insone
que impingiu-lhe as mãos criminosas
agora marcam na tela desértica e grave
de teu quarto - sem borboletas nem sorrisos -
a insone obra
da tragédia imperdoável.

domingo, 9 de maio de 2010

Um Poema - Francisco Marcelo Cabral


Assim simples
(O milagre acontece e, quando acontece, acredite,
a vida sabe como celebrar” - Maharaji *)

Quando a água do mar vem
Repleta de alimento e vida
a ostra simplesmente a recebe e aceita
e gratidão é o seu brilho de pedra molhada.

Quando cai a chuva
Fecundando os delicados pelos da umidade
A relva simplesmente a recebe e aceita
E gratidão é o seu verde sem manchas.

Quando o sol se levanta
Com sua coroa de luzes quentes,
As flores simplesmente o recebem e aceitam
E gratidão é sua variada beleza.

Quando essa respiração vem
Com sua renovada força de vida
Não perguntes nada
Simplesmente a recebe e aceita
E gratidão seja a música de tua alegria

• Mestre-guru indiano.