(Abrimos espaço para o poeta Emanuel Medeiros. O homem é de Florianópolis, mas morou por 10 anos em Porto Alegre, onde fundou cine-clubes e grêmios literários no antigo secundário e na universidade - UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Participou ativamente da luta política no Movimento Estudantil Universitário. Amargou a passagem pelo " inferno na Oban e no Dops". Mas não se dobrou. Hoje, continua seu trabalho em favor da vida e tenta conhecer um pouco do coração do homem. Considera-se um "Mascate Cultural". Ao poema!Pequeno)
DESTERRO *
Desterro cumpriu-me
e cumpriu-se.
O rio começava atrás de casa
(como eu),
e foi embora – afluentes.
Vento sul, Campo do Manejo, Rita
Maria, Rio da Avenida, Miramar,
bala queimada, Catecipes, Praia do Muller,
procissão do Senhor Morto, Cine Rox,
gibis, Grupo Escolar Dias Velho,
Chico Barriga D’Água, paixão camuflada pela menina
da Rua de Cima – ela nunca soube.)
Só enuncio: acumulo – sobrecarregado.
O rio foi embora.
Casa demolida, mãe na soleira da porta, pitanga no
quintal, regata na Baía Sul, matracas, turíbulos, trapiche da
Praia de Fora, gaita-de-boca, groselha, tainha frita,
fogão de lenha, beliches, pé de amora.
Perdeu-se o rio: não sei do seu delta.
Perdi-me: tiro certeiro na gaivota.
A rua pequena, era a maior do mundo – coração.
Desterro inunda-me:
outrora/agora.
* Nome antigo de Florianópolis-SC
domingo, 4 de maio de 2008
segunda-feira, 24 de março de 2008
Procurando o Moreninho
“O chicote é a figura da deformidade
e o cativeiro deforma o homem. “ ( * )
Na última sexta-feira, dia 21, estivemos comemorando o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. A data foi instituida pela ONU devido ao Massacre de Sharpeville, na África do Sul, em 21 de Março de 1960. Veio daí a idéia dessa crônica.
Se a protagonista do fato que vou contar morasse na Bahia, certamente, seriam outras as minhas palavras; possivelmente estaria aqui escrevendo sobre música, dança e alegria.. Como diria Caetano: “Negro é lindo!”. Os baianos saíram na frente, assumindo a sua negritude. Vão, aos poucos, consumando uma nova realidade social, livre do preconceito e do racismo. Extinguem assim a idéia de “Cor da Alma”.
Fizeram mais: assumiram – corretamente - a cultura como um valor libertário. Cantar, rir e dançar, libertam e excluem qualquer necessidade de turra, cara feia ou violência. Na Bahia, as notas musicais que constroem melodias e harmonias embalam também o movimento do corpo; a liberdade é a consequência natural do desprendimento, do bom humor e bem-estar coletivo. Ser racista e preconceituoso na terra de Painho e Mainha é feio que dói!
Mas a nossa personagem não pensa assim. Carrega na carcaça e no imaginário o peso dos quase quatrocentos anos do jugo da escravidão, essa prática abjeta que permeou a vida brasileira ao longo do período colonial, avançando até o final do império português.
Não sei o nome de nossa artista, nunca a tinha visto. Estive perto dela apenas alguns minutos, tempo suficiente para colher o material com o qual alinhavo este texto. Mas já sei que se trata de uma alma ingênua, vítima da nossa história de opressão. Uma alma gestada sob o signo da dominação branca, que só consegue reconhecer a presença de Deus na alvura das coisas, como se Deus tivesse cor, como se Deus fosse o protótipo ou representante dos homens que dominam.
O que narro a seguir, servirá de exemplo prático para ilustrar muito do que expus até aqui, abusando de sua paciência.
Duas horas da tarde na tórrida Cataguases. Rita Bento, militante do Movimento Negro, e eu, aproveitávamos a sombra num dos bancos de Santa Rita de Cassia. Falávamos de amenidades, das muitas mentiras e algumas relativas verdades da política, quando fomos abordados por uma “mulata”, ela mesma, a nossa artista:
- Eu estou procurando o Dagoberto... é um cara que trabalha com fulano de tal, é segurança...
Rita Bento ainda franzia o sobrolho na tentativa de buscar na memória a figura pretendida pela mulher, quando ouviu:
- É um moreninho que nem você, moça!
Aguerrida militante, digna de Zumbi dos Palmares, percebendo a fragilidade daquela alma, Rita redarguiu, questionando com certa dureza:
- Epa, e quem é que lhe falou que eu sou moreninha? Eu sou é negra, minha filha!
Mas nossa personagem, compassiva, não entendeu o discurso da lutadora:
- Não fale assim, você não é negra!
- É claro que eu sou negra, olha aqui a cor da minha pele, você tem problema de visão? Sou negra com muito orgulho. N E G R A!, e do Movimento... das bonitas, vê!? Se você não sabe, negros somos todos nós que viemos da África.
A “mulata” não entendeu muito a lição de consciência étnica da Rita Bento e ao tentar se retratar, piorou ainda mais a situação de constrangimento:
- É mesmo, né gente?, tem muito branco que não come no prato que o negro come!
Rita, já escaldada com a visão preconceituosa das pessoas e com consciência da realidade histórica que vivemos, relevou com humor:
- Procura a sua informação no Almoxarifado da Prefeitura. Fica no final da avenida... na boca do Léo. Lá eles conhecem todo mundo, inclusive os moreninhos!
* Trecho do discurso de Basílio Machado, proferido em 1885, para homenagear José Bonifácio.
e o cativeiro deforma o homem. “ ( * )
Na última sexta-feira, dia 21, estivemos comemorando o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. A data foi instituida pela ONU devido ao Massacre de Sharpeville, na África do Sul, em 21 de Março de 1960. Veio daí a idéia dessa crônica.
Se a protagonista do fato que vou contar morasse na Bahia, certamente, seriam outras as minhas palavras; possivelmente estaria aqui escrevendo sobre música, dança e alegria.. Como diria Caetano: “Negro é lindo!”. Os baianos saíram na frente, assumindo a sua negritude. Vão, aos poucos, consumando uma nova realidade social, livre do preconceito e do racismo. Extinguem assim a idéia de “Cor da Alma”.
Fizeram mais: assumiram – corretamente - a cultura como um valor libertário. Cantar, rir e dançar, libertam e excluem qualquer necessidade de turra, cara feia ou violência. Na Bahia, as notas musicais que constroem melodias e harmonias embalam também o movimento do corpo; a liberdade é a consequência natural do desprendimento, do bom humor e bem-estar coletivo. Ser racista e preconceituoso na terra de Painho e Mainha é feio que dói!
Mas a nossa personagem não pensa assim. Carrega na carcaça e no imaginário o peso dos quase quatrocentos anos do jugo da escravidão, essa prática abjeta que permeou a vida brasileira ao longo do período colonial, avançando até o final do império português.
Não sei o nome de nossa artista, nunca a tinha visto. Estive perto dela apenas alguns minutos, tempo suficiente para colher o material com o qual alinhavo este texto. Mas já sei que se trata de uma alma ingênua, vítima da nossa história de opressão. Uma alma gestada sob o signo da dominação branca, que só consegue reconhecer a presença de Deus na alvura das coisas, como se Deus tivesse cor, como se Deus fosse o protótipo ou representante dos homens que dominam.
O que narro a seguir, servirá de exemplo prático para ilustrar muito do que expus até aqui, abusando de sua paciência.
Duas horas da tarde na tórrida Cataguases. Rita Bento, militante do Movimento Negro, e eu, aproveitávamos a sombra num dos bancos de Santa Rita de Cassia. Falávamos de amenidades, das muitas mentiras e algumas relativas verdades da política, quando fomos abordados por uma “mulata”, ela mesma, a nossa artista:
- Eu estou procurando o Dagoberto... é um cara que trabalha com fulano de tal, é segurança...
Rita Bento ainda franzia o sobrolho na tentativa de buscar na memória a figura pretendida pela mulher, quando ouviu:
- É um moreninho que nem você, moça!
Aguerrida militante, digna de Zumbi dos Palmares, percebendo a fragilidade daquela alma, Rita redarguiu, questionando com certa dureza:
- Epa, e quem é que lhe falou que eu sou moreninha? Eu sou é negra, minha filha!
Mas nossa personagem, compassiva, não entendeu o discurso da lutadora:
- Não fale assim, você não é negra!
- É claro que eu sou negra, olha aqui a cor da minha pele, você tem problema de visão? Sou negra com muito orgulho. N E G R A!, e do Movimento... das bonitas, vê!? Se você não sabe, negros somos todos nós que viemos da África.
A “mulata” não entendeu muito a lição de consciência étnica da Rita Bento e ao tentar se retratar, piorou ainda mais a situação de constrangimento:
- É mesmo, né gente?, tem muito branco que não come no prato que o negro come!
Rita, já escaldada com a visão preconceituosa das pessoas e com consciência da realidade histórica que vivemos, relevou com humor:
- Procura a sua informação no Almoxarifado da Prefeitura. Fica no final da avenida... na boca do Léo. Lá eles conhecem todo mundo, inclusive os moreninhos!
* Trecho do discurso de Basílio Machado, proferido em 1885, para homenagear José Bonifácio.
segunda-feira, 17 de março de 2008
Resenha Luiz Lopez

(O artista plástico e professor Luiz Lopez apresenta a sua visão sobre o meu livro Ilha do Horizonte, a ser lançado em julho.)
O Pescador de Pérolas
Em “Ilha do Horizonte”, novo livro de Vanderlei Pequeno, o autor pesca crônicas no horizonte da memória, plenas de humor, saudosismo, lirismo, paixão, dor, política, crítica social, empatia com os desvalidos e com os antigos craques da bola; enfim, histórias que constroem uma rede de ocorrências locais dessa ilha, na verdade, microcosmo, chamada Cataguases, a qual povoa seu horizonte de escritor, e que nos permite uma analogia panorâmica com o Brasil.
Que cidade não teve ou tem seus personagens pitorescos que moram no imaginário de seus habitantes? Que povoado não guarda suas histórias engraçadas, ou comoventes, seus tipos, os quais desafiam as normas estabelecidas? Quem nunca ouviu falar dos “boleiros”, hoje esquecidos e abandonados, a driblar sua vida miúda, num mundo cada vez mais desumanizado?
Pois Vanderlei Pequeno, cronista cataguasense, apanha essas e outras prosas, resgatando a cor local, deixando-nos o testemunho de um tempo, de situações e pessoas comuns, para nosso conhecimento e deleite. Dono de uma linguagem fluente, simples como a água do rio que circunda sua ilha, nem por isso simplista; porém, sem descuidar dos diálogos intertextuais, com referências a filósofos, educadores, músicos, escritores e poetas que enriquecem sua escrita, como se o autor nos fizesse um convite para navegarmos também em outras águas – no oceano das obras dos mestres, sempre prontas a alargar nossa visão de mundo.
O escritor está continuamente guiando-nos em sua pescaria de casos na Ilha do Horizonte. E podem estar certos de que, na companhia desse pescador-de-pérolas, a rede de acontecimentos e situações estará sempre cheia, deixando viva na nossa memória a imagem dos que teceram e tecem seus dias nesse emaranhado de fios-fatos que forma a complexa cadeia de nossas vidas.
O Pescador de Pérolas
Em “Ilha do Horizonte”, novo livro de Vanderlei Pequeno, o autor pesca crônicas no horizonte da memória, plenas de humor, saudosismo, lirismo, paixão, dor, política, crítica social, empatia com os desvalidos e com os antigos craques da bola; enfim, histórias que constroem uma rede de ocorrências locais dessa ilha, na verdade, microcosmo, chamada Cataguases, a qual povoa seu horizonte de escritor, e que nos permite uma analogia panorâmica com o Brasil.
Que cidade não teve ou tem seus personagens pitorescos que moram no imaginário de seus habitantes? Que povoado não guarda suas histórias engraçadas, ou comoventes, seus tipos, os quais desafiam as normas estabelecidas? Quem nunca ouviu falar dos “boleiros”, hoje esquecidos e abandonados, a driblar sua vida miúda, num mundo cada vez mais desumanizado?
Pois Vanderlei Pequeno, cronista cataguasense, apanha essas e outras prosas, resgatando a cor local, deixando-nos o testemunho de um tempo, de situações e pessoas comuns, para nosso conhecimento e deleite. Dono de uma linguagem fluente, simples como a água do rio que circunda sua ilha, nem por isso simplista; porém, sem descuidar dos diálogos intertextuais, com referências a filósofos, educadores, músicos, escritores e poetas que enriquecem sua escrita, como se o autor nos fizesse um convite para navegarmos também em outras águas – no oceano das obras dos mestres, sempre prontas a alargar nossa visão de mundo.
O escritor está continuamente guiando-nos em sua pescaria de casos na Ilha do Horizonte. E podem estar certos de que, na companhia desse pescador-de-pérolas, a rede de acontecimentos e situações estará sempre cheia, deixando viva na nossa memória a imagem dos que teceram e tecem seus dias nesse emaranhado de fios-fatos que forma a complexa cadeia de nossas vidas.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Ilha do Horizonte
(No próximo mês de abril eu vou estar lançando um novo livro que vai se chamar Ilha do Horizonte. O Zeca Junqueira leu os originais e cometeu a gentileza de escrever essa belíssima matéria sobre o trabalho. Compartilho contigo. Um abraço.Pequeno)
Como um menino
Extra! Extra! Extra! Vem aí o novo livro do craque Vanderlei Pequeno: Ilha do Horizonte. Mais uma vez vamos mergulhar num universo de simplicidade e graça, e por que não?, de lágrimas para os mais saudosistas; mas anotem aí, lágrimas das boas, daquelas que lavam e refrescam a alma.
Eu li os originais do livro, que me conduziram numa espécie de caminho de volta pra casa, varando o tempo e o esquecimento, até àquela rua mineira da minha infância, até hoje rua do esperto do Vanderlei Pequeno.
Conheci as duas Marias e a Luísa da sua crônica, elas também povoaram a minha meninice. E como não podia deixar de ser, eu fazia parada obrigatória na Papelaria Real, e como o Vanderlei Pequeno, ficava por lá ouvindo os discos mais novos das paradas de sucesso, tirando uma casquinha do som, enquanto conversava com o Bastião, que num carnaval daqueles, muito doido e animado, mas já sem dinheiro, trocou uma camisa do flamengo que vestia como fantasia por uma última pinga na Taberna do Embalo. E lá se foi sambando pela Praça Rui Barbosa.
Quanto ao Cine Machado, meu Deus!, tão bem retratado na sua crônica “Nas matinês do cinema do Nelo”, o que dizer sobre ele? Ainda há tempo para um filme qualquer de amor ou de aventura, para um beijo na namorada com trilha sonora (quem sabe Tema de Lara), ainda há algum ingresso sobrando para nós ou alguém disposto a negociar conosco uma entrada meio atrasada para uma última sessão de cinema? Não, não há, que pena, a censura velada desse mundo coisificado nos bloqueou de vez.
Mas sai fora, xô!, nada de tristeza que Vanderlei Pequeno não é disso! Brincando com nossa emoção, ele escreve como um menino, sem medo da simplicidade, do riso fácil, da gargalhada solta. As suas palavras não estão “abandonadas, escorregando pelas paredes, soltas no inferno, esquecidas, caindo na noite”, como as de sofridos poetas: elas estão soltas e nos levam pela mão para a luz do dia, para os campos de futebol, para as matinês, para os quintais (quando ainda os havia), elas nos levam para o lúdico. Ah!, Vanderlei, quem me dera que a sua fosse também a minha escrita, que sejam minhas as suas palavras, que mesmo quando falam sobre perda, como a morte de sua mãe, acabam desembocando mesmo é na vida: “minha mãe, dona Conceição, que, por coincidência (?), está sepultada em jazigo situado em frente ao de sua terna Comadre e amiga. Enfim, vizinhas para sempre”.
Ilha do Horizonte forma uma trilogia com 50 Causos do Futebol e Casos e Acasos, livros que guardo em minha estante junto aos que me são mais caros. A Casa da Rua Alferes e Outras Crônicas, que ele divide com os bambas Zé Antônio Pereira, Toquinho e Zé Vecchi, também está lá, todos a postos, como antídotos contra a adultice. De vez em quando constato: outrora, em algum lugar, a vida correu solta enquanto retumbavam hinos. Já abri espaço lá para o novo livro do Vanderlei Pequeno.
Meu caro Pequeno, já se vai tempo, nós nos conhecemos há quase 50 anos. Então eu te peço: continue brincando com as letras como os meninos brincam com a bola, continue nos lembrando que escrever não é sinônimo de sofrer, como muitos acreditam, continue a nos chamar em voz alta à nossa porta (lembra-se?) como você fazia quando era criança nos convocando para as brincadeiras. Prometo que eu continuo atendendo ao seu chamado.
Te devo uma por esse novo livro, que aguardo com dedicatória e tudo.
Um grande abraço, escritor.
Zeca Junqueira, Rio, 14/02/2008
Como um menino
Extra! Extra! Extra! Vem aí o novo livro do craque Vanderlei Pequeno: Ilha do Horizonte. Mais uma vez vamos mergulhar num universo de simplicidade e graça, e por que não?, de lágrimas para os mais saudosistas; mas anotem aí, lágrimas das boas, daquelas que lavam e refrescam a alma.
Eu li os originais do livro, que me conduziram numa espécie de caminho de volta pra casa, varando o tempo e o esquecimento, até àquela rua mineira da minha infância, até hoje rua do esperto do Vanderlei Pequeno.
Conheci as duas Marias e a Luísa da sua crônica, elas também povoaram a minha meninice. E como não podia deixar de ser, eu fazia parada obrigatória na Papelaria Real, e como o Vanderlei Pequeno, ficava por lá ouvindo os discos mais novos das paradas de sucesso, tirando uma casquinha do som, enquanto conversava com o Bastião, que num carnaval daqueles, muito doido e animado, mas já sem dinheiro, trocou uma camisa do flamengo que vestia como fantasia por uma última pinga na Taberna do Embalo. E lá se foi sambando pela Praça Rui Barbosa.
Quanto ao Cine Machado, meu Deus!, tão bem retratado na sua crônica “Nas matinês do cinema do Nelo”, o que dizer sobre ele? Ainda há tempo para um filme qualquer de amor ou de aventura, para um beijo na namorada com trilha sonora (quem sabe Tema de Lara), ainda há algum ingresso sobrando para nós ou alguém disposto a negociar conosco uma entrada meio atrasada para uma última sessão de cinema? Não, não há, que pena, a censura velada desse mundo coisificado nos bloqueou de vez.
Mas sai fora, xô!, nada de tristeza que Vanderlei Pequeno não é disso! Brincando com nossa emoção, ele escreve como um menino, sem medo da simplicidade, do riso fácil, da gargalhada solta. As suas palavras não estão “abandonadas, escorregando pelas paredes, soltas no inferno, esquecidas, caindo na noite”, como as de sofridos poetas: elas estão soltas e nos levam pela mão para a luz do dia, para os campos de futebol, para as matinês, para os quintais (quando ainda os havia), elas nos levam para o lúdico. Ah!, Vanderlei, quem me dera que a sua fosse também a minha escrita, que sejam minhas as suas palavras, que mesmo quando falam sobre perda, como a morte de sua mãe, acabam desembocando mesmo é na vida: “minha mãe, dona Conceição, que, por coincidência (?), está sepultada em jazigo situado em frente ao de sua terna Comadre e amiga. Enfim, vizinhas para sempre”.
Ilha do Horizonte forma uma trilogia com 50 Causos do Futebol e Casos e Acasos, livros que guardo em minha estante junto aos que me são mais caros. A Casa da Rua Alferes e Outras Crônicas, que ele divide com os bambas Zé Antônio Pereira, Toquinho e Zé Vecchi, também está lá, todos a postos, como antídotos contra a adultice. De vez em quando constato: outrora, em algum lugar, a vida correu solta enquanto retumbavam hinos. Já abri espaço lá para o novo livro do Vanderlei Pequeno.
Meu caro Pequeno, já se vai tempo, nós nos conhecemos há quase 50 anos. Então eu te peço: continue brincando com as letras como os meninos brincam com a bola, continue nos lembrando que escrever não é sinônimo de sofrer, como muitos acreditam, continue a nos chamar em voz alta à nossa porta (lembra-se?) como você fazia quando era criança nos convocando para as brincadeiras. Prometo que eu continuo atendendo ao seu chamado.
Te devo uma por esse novo livro, que aguardo com dedicatória e tudo.
Um grande abraço, escritor.
Zeca Junqueira, Rio, 14/02/2008
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Três histórias
Para começar o ano de uma forma descontraída em sua companhia, conto, a seguir, alguns casos que andei recolhendo ao longo do vai-e-volta de minhas andanças por esse mundo de Deus.
São três episódios que denunciam o uso indevido da nossa língua; exemplos de mau uso das palavras e formulação de frases que deságuam em desfechos curiosos e engraçados.
Esclareço: não é meu intuito diminuir ou fazer juízo de quem quer que seja. Os personagens aqui são todos fictícios e essas linhas são pura invenção de mentes criativas e bem-humoradas, das tantas que existem neste nosso país.
Aproveite as férias, viaje comigo pelo imaginário popular do brasileiro. Aqui eu procuro revelar alguma coisa da face ingênua e singular de nossa gente que só mesmo através da oralidade pode vir a lume. Vamos lá:
Verborragia
A língua portuguesa é riquíssima e nos oferece amplas possibilidades de expressão do nosso pensamento, da nossa mensagem. Uns se expressam através da literatura, outros através do cinema, do teatro, da televisão e outros trabalham com o rádio, até hoje, um dos maiores veículos de comunicação existente. E foi exatamente numa locução esportiva que um radialista mineiro exagerou na tentativa de informar ao público que o gramado não reunia condições de receber aquela partida de futebol:
-Meus amigos, choveu muito esta tarde e o gramado está praticamente impraticável para a prática do futebol.
Assinatura não confere
Sebastião Jorge Pinto Ferreira da Silva, nome de pia, perigoso demais pra dar personalidade àquele caboclo lá da cidade de Inaraug, no estado de Minas Gerais. Era tudo muito complicado, já que Sebastião mal se dera conta da existência das primeiras letras através das lições dadas pela comadre de seu pai, sua madrinha, ainda na infância. Depois disso, agarrou na enxada, onde ganhou a duras penas sua vidinha de homem do campo. Agora estava aposentado e morava no perímetro urbano. Nada mais.
Mas dava pra levar, até porque sua mulher, Felizbina, fazia jus ao nome que lembrava felicidade, acumulando algum rendimento com a costura para meninos e meninas. Mulher trabalhadora, conseguiu também, depois de muita luta, papelada pra-lá-e-pra-cá, um Beneficio da Previdência Social. Juntando tudo, dava até pra ter uma continha no Banco do Brasil, com direito a retirar talão de cheques. Claro, o titular da conta era o marido, Sebastião, já que negócio em banco, na época, ainda era assunto só pra homem. Mulher só na cozinha... ou então na máquina de costura.
Aliás, mulher servia também pra levar-trazer recado e tirar dinheiro no banco pro marido. Mas podia dar problema, gerar muita gargalhada nas rodinhas de praça e botequins na cidade e até virar Caso, vindo parar na página do jornal Cataguases, muitos anos depois, em 2008.
Sebastião, com muita dificuldade, escreveu um cheque de cinqüenta cruzeiros e pediu à esposa que fosse ao banco tirar o dinheiro. Era para pagar umas continhas da casa e deixar de reserva alguns trocadinhos pro fumo de rolo, palha, uma ou outra água-de-cana, coisinhas básicas. Felizbina, obediente, chegou ao caixa, mas teve o cheque devolvido pelo bancário, pois a assinatura não conferia; ela deveria pedir ao marido que assinasse da forma que constava no Cartão de Autógrafos da agência.
A mulher, que perdera boa parte da audição por conta dos anos de zic-zic da máquina de costura, imaginava que todos à sua volta eram também surdos e por isso falava muito alto:
É só na escrita do nome?, perguntou gritando. O bancário disse que sim e Feliz saiu à busca do marido para corrigir o erro. Demorou mais de duas horas para voltar, embora morasse bem perto da praça onde estava o banco. Com a agência quase fechando e lotada de clientes, bancários e usuários, entrou apavorada e falando alto:
- Nós custamos a ver o erro no cheque. Você devia ter me avisado que o Tião esqueceu de botar o Pinto lá atrás!
Na Cabeça
Partida rolando quente entre o Ribeiro Junqueira, de Leopoldina e o Ideal, da cidade de Recreio. Jogo no campo do Ribeiro. Destacados pela emissora local para fazer a cobertura, como narrador, o distraído e ansioso Gerson Costa, e como repórter de campo, Roberto Nairibe, um famoso radialista, conhecido por não perder nenhum lance, dentro ou fora das quatro linhas. Os trabalhos de radiodifusão tinham naquela tarde o patrocínio de uma famosa marca de cerveja que aqui nomino Arctica!
É muito comum nas transmissões do interior do país que os profissionais aproveitem todos os momentos possíveis para a veiculação de mensagens comerciais, gravadas, ou ao vivo. As gravadas são rodadas antes do início da partida, no intervalo entre os dois tempos e após o final do embate. Para veicular os comerciais ao vivo, o narrador e os repórteres destacados, aproveitam as saídas de bola, um córner, os momentos que antecedem a cobrança de uma falta, ou, como dizem alguns profissionais mais intelectualizados, os “hiatos” do jogo.
Mas esta sensacional tirada não se deu em nenhum desses momentos. A bola estava rolando plena no meio do campo quando o narrador Gerson Costa observou que o goleiro do Ideal estava caído, sem que o Juiz se desse conta de qualquer incidente. Havia acontecido alguma coisa, alguma agressão ao goleiro, mas fora do lance da bola.
Imediatamente, Gerson pediu informações a Roberto, do que havia ocorrido. Roberto informou que um irresponsável torcedor do Ribeiro Junqueira que estava atrás da meta do arqueiro o atingiu com uma garrafa na cabeça. O goleiro ferido sangrava muito e poderia, por conseqüência da ferida e do sol escaldante da tarde, ter uma convulsão.
Mas Celso não considerando nada disso, não perdeu tempo, aproveitou o episódio para faturar um comercialzinho:
-Tomara que seja da cerveja Arctica, deliciosa, refrescante, até passarim bebe!
São três episódios que denunciam o uso indevido da nossa língua; exemplos de mau uso das palavras e formulação de frases que deságuam em desfechos curiosos e engraçados.
Esclareço: não é meu intuito diminuir ou fazer juízo de quem quer que seja. Os personagens aqui são todos fictícios e essas linhas são pura invenção de mentes criativas e bem-humoradas, das tantas que existem neste nosso país.
Aproveite as férias, viaje comigo pelo imaginário popular do brasileiro. Aqui eu procuro revelar alguma coisa da face ingênua e singular de nossa gente que só mesmo através da oralidade pode vir a lume. Vamos lá:
Verborragia
A língua portuguesa é riquíssima e nos oferece amplas possibilidades de expressão do nosso pensamento, da nossa mensagem. Uns se expressam através da literatura, outros através do cinema, do teatro, da televisão e outros trabalham com o rádio, até hoje, um dos maiores veículos de comunicação existente. E foi exatamente numa locução esportiva que um radialista mineiro exagerou na tentativa de informar ao público que o gramado não reunia condições de receber aquela partida de futebol:
-Meus amigos, choveu muito esta tarde e o gramado está praticamente impraticável para a prática do futebol.
Assinatura não confere
Sebastião Jorge Pinto Ferreira da Silva, nome de pia, perigoso demais pra dar personalidade àquele caboclo lá da cidade de Inaraug, no estado de Minas Gerais. Era tudo muito complicado, já que Sebastião mal se dera conta da existência das primeiras letras através das lições dadas pela comadre de seu pai, sua madrinha, ainda na infância. Depois disso, agarrou na enxada, onde ganhou a duras penas sua vidinha de homem do campo. Agora estava aposentado e morava no perímetro urbano. Nada mais.
Mas dava pra levar, até porque sua mulher, Felizbina, fazia jus ao nome que lembrava felicidade, acumulando algum rendimento com a costura para meninos e meninas. Mulher trabalhadora, conseguiu também, depois de muita luta, papelada pra-lá-e-pra-cá, um Beneficio da Previdência Social. Juntando tudo, dava até pra ter uma continha no Banco do Brasil, com direito a retirar talão de cheques. Claro, o titular da conta era o marido, Sebastião, já que negócio em banco, na época, ainda era assunto só pra homem. Mulher só na cozinha... ou então na máquina de costura.
Aliás, mulher servia também pra levar-trazer recado e tirar dinheiro no banco pro marido. Mas podia dar problema, gerar muita gargalhada nas rodinhas de praça e botequins na cidade e até virar Caso, vindo parar na página do jornal Cataguases, muitos anos depois, em 2008.
Sebastião, com muita dificuldade, escreveu um cheque de cinqüenta cruzeiros e pediu à esposa que fosse ao banco tirar o dinheiro. Era para pagar umas continhas da casa e deixar de reserva alguns trocadinhos pro fumo de rolo, palha, uma ou outra água-de-cana, coisinhas básicas. Felizbina, obediente, chegou ao caixa, mas teve o cheque devolvido pelo bancário, pois a assinatura não conferia; ela deveria pedir ao marido que assinasse da forma que constava no Cartão de Autógrafos da agência.
A mulher, que perdera boa parte da audição por conta dos anos de zic-zic da máquina de costura, imaginava que todos à sua volta eram também surdos e por isso falava muito alto:
É só na escrita do nome?, perguntou gritando. O bancário disse que sim e Feliz saiu à busca do marido para corrigir o erro. Demorou mais de duas horas para voltar, embora morasse bem perto da praça onde estava o banco. Com a agência quase fechando e lotada de clientes, bancários e usuários, entrou apavorada e falando alto:
- Nós custamos a ver o erro no cheque. Você devia ter me avisado que o Tião esqueceu de botar o Pinto lá atrás!
Na Cabeça
Partida rolando quente entre o Ribeiro Junqueira, de Leopoldina e o Ideal, da cidade de Recreio. Jogo no campo do Ribeiro. Destacados pela emissora local para fazer a cobertura, como narrador, o distraído e ansioso Gerson Costa, e como repórter de campo, Roberto Nairibe, um famoso radialista, conhecido por não perder nenhum lance, dentro ou fora das quatro linhas. Os trabalhos de radiodifusão tinham naquela tarde o patrocínio de uma famosa marca de cerveja que aqui nomino Arctica!
É muito comum nas transmissões do interior do país que os profissionais aproveitem todos os momentos possíveis para a veiculação de mensagens comerciais, gravadas, ou ao vivo. As gravadas são rodadas antes do início da partida, no intervalo entre os dois tempos e após o final do embate. Para veicular os comerciais ao vivo, o narrador e os repórteres destacados, aproveitam as saídas de bola, um córner, os momentos que antecedem a cobrança de uma falta, ou, como dizem alguns profissionais mais intelectualizados, os “hiatos” do jogo.
Mas esta sensacional tirada não se deu em nenhum desses momentos. A bola estava rolando plena no meio do campo quando o narrador Gerson Costa observou que o goleiro do Ideal estava caído, sem que o Juiz se desse conta de qualquer incidente. Havia acontecido alguma coisa, alguma agressão ao goleiro, mas fora do lance da bola.
Imediatamente, Gerson pediu informações a Roberto, do que havia ocorrido. Roberto informou que um irresponsável torcedor do Ribeiro Junqueira que estava atrás da meta do arqueiro o atingiu com uma garrafa na cabeça. O goleiro ferido sangrava muito e poderia, por conseqüência da ferida e do sol escaldante da tarde, ter uma convulsão.
Mas Celso não considerando nada disso, não perdeu tempo, aproveitou o episódio para faturar um comercialzinho:
-Tomara que seja da cerveja Arctica, deliciosa, refrescante, até passarim bebe!
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
O mundo do Místico e do Materialista
Aproveito uma frase do Sermão da Sexagésima, do Padre Antônio Vieira, pregado na Capela Real no ano de 1655, para iniciar essas minhas breves e últimas palavras do ano aqui no Blog: “As ações, a vida, o exemplo, as obras são as que convertem o mundo”.
Lembro-me que nos meus primeiros dias de Colégio Cataguases, ainda um tanto assustado com a nova vida que iniciara, na década de mil novecentos e sessenta, ouvi algo nessa linha, do professor Nilton Rossi:
- As palavras movem, os exemplos arrastam! Juro, eu não imaginava que o Mestre havia buscado na fonte do padre-pensador, a sabedoria que nos transmitia, com muito gestual, mas serenamente!
De quais exemplos são seguidas as nossas palavras?, é a pergunta que não deve calar, de modo que o que verbalizamos não se enverede pela retórica vazia, não caia na inépcia; é preciso não trilhar o caminho das verdades que dão no fosso da hipocrisia, ou simplesmente compõem o quadro, às vezes cintilante, mas quase sempre, superficial das aparências. É fundamental não ser mentiroso consigo mesmo para não o ser com os outros.
Viver bem é viver coerentemente e em paz com nós mesmos. É poder olhar altivo nos olhos do próximo, sem constrangimento ou culpa; é acertar no equilíbrio entre a teoria e a prática; encontrar a justa medida da nossa existência, considerando nossa missão de homens e mulheres nesse mundo que nos é dado. Fernando Pessoa, ainda em 1907, já escrevia: Nunca desistir nem recuar do propósito de fazer bem à humanidade; nunca esquecer os sofrimentos e as dores humanas. Assim, é possível experimentar certa realização pessoal, alguma dose de felicidade.
Mas, caro leitor, não se iluda: sustentar com exemplos as palavras tem um custo, em qualquer tempo e em qualquer lugar, principalmente, quando essa postura é assumida por homens depositários de Boas Novas, em cenários que mais tendem a conformar, conservar valores do que a transformar, revolucionar.
Seguindo o filme, passo a falar agora de duas figuras históricas e verdadeiras que, felizmente, sobreviveram, apesar de tudo. São os nossos principais aniversariantes do mês.
O primeiro, apesar de ter sido sepultado há quase dois mil anos, renasce a cada vinte e cinco de dezembro. Não posso afirmar, então, se a festa é de seu aniversário ou renascimento.
Homem nascido na Judéia, região existente entre o mar Morto e o mar Mediterrâneo, - no mesmo lugar onde brigam até hoje Israelitas, Palestinos e outros grupos fundamentalistas- passou a maior parte da sua vida em Nazaré, na Galiléia, uma região do norte de Israel, onde também ocorreu a sua transfiguração. Como esta crônica não pretende abordar o lado místico do Filho de Deus, apenas deixo registrado que os livros dos Evangelhos tratam de seus 35 milagres e que o primeiro deles teria ocorrido em Caná, durante uma festa de casamento, quando Ele transformou água em vinho, para atender aos convivas. Pouco depois, no lago de Genesaré, encheu em profusão a rede dos pescadores(Simão e Pedro) de peixes, quase fazendo o barco afundar. Houve também a multiplicação dos cinco pães e dois peixes para servir de alimento a milhares de homens, mulheres e crianças pobres; Isso sem contar a cura de cegos e doentes e o ressuscitamento de Lázaro que havia morrido já há quatro dias. Em todos os casos, é sabido que sua obra foi feita para demonstrar o amor e a misericórdia de Deus.
Já a ética do Jesus histórico estava baseada na defesa da vida em sua plenitude; vida que seria um dom de Deus, portanto, direito de todos, sem discriminação. Assim, os homens seriam iguais em dignidade e criados à imagem e semelhança do Senhor. Se naquela época alguns eram mais iguais do que outros, seria em decorrência da injustiça social que grassava no Império Romano. Pregando e dando exemplos de humildade, lavou os pés de seus discípulos, lembrando que a morada de Deus era o coração de cada um. Fez sua clara opção preferencial pelos pobres, marginalizados e enfermos. Era o ungido, o Jesus de Nazaré.
O outro homenageado nesta crônica completou cem anos no último dia quinze de dezembro. Seu nome, Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares, arquiteto renomado e também defensor de uma sociedade sem desigualdades. Importantes são a família, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar, não se cansa de repetir em suas entrevistas. No seu livro “ Minha Arquitetura”, fala com orgulho de seu avô que, embora tivesse aposentado como Ministro do Supremo Tribunal Federal, morreu pobre, despossuído. Por defender idéias comunistas, teve que se exilar na França, na década de 1960, durante o regime militar no Brasil. Lá, trabalhou para o governo argelino, desenhando a Universidade de Constantine e depois a mesquita de Argel. Criou também a sede do Partido Comunista Francês e o prédio da Editora Mondadore, na Itália.
Antes, já havia projetado várias construções na criação de Brasília, no final da década de 1950 no governo Juscelino Kubitschek, cujo plano urbanístico foi feito por Lúcio Costa; dentre elas se destacam o Palácio do Planalto, da Alvorada, o Congresso Nacional. Niemeyer manifesta, sempre que pode, a sua insatisfação com os rumos tomados pela Capital Federal, construída, originalmente, para abrigar os trabalhadores, sede do governo e servidores públicos.
Projetou para Cataguases, ainda na década de quarenta do século passado, o prédio do Colégio de Cataguases, na granjaria e a casa do escritor Francisco Inácio Peixoto, por quem foi contratado. O projeto da casa foi entregue em 1940 e o Colégio concluído em 1947.
Reconhecido mundialmente pelo seu trabalho na arquitetura, Niemayer é não menos importante pelas posições políticas que adotou ao longo de sua vida. Jamais se curvou aos regimes autoritários ou abriu mão de defender e lutar, como filiado de seu partido e ativista político, pelo advento de uma sociedade igualitária, sem explorados ou exploradores. Como o Jesus histórico, defende a dádiva de uma vida plena e abundante para todos, homens e mulheres.
Os dois – um Místico e outro Materialista – com a mesma boa vontade, almejam a sociedade fundada nos ideais de fraternidade e solidariedade que os próprios homens, com seus Sistemas e vícios, ao longo de milênios, ainda não foram capazes de construir.
Lembro-me que nos meus primeiros dias de Colégio Cataguases, ainda um tanto assustado com a nova vida que iniciara, na década de mil novecentos e sessenta, ouvi algo nessa linha, do professor Nilton Rossi:
- As palavras movem, os exemplos arrastam! Juro, eu não imaginava que o Mestre havia buscado na fonte do padre-pensador, a sabedoria que nos transmitia, com muito gestual, mas serenamente!
De quais exemplos são seguidas as nossas palavras?, é a pergunta que não deve calar, de modo que o que verbalizamos não se enverede pela retórica vazia, não caia na inépcia; é preciso não trilhar o caminho das verdades que dão no fosso da hipocrisia, ou simplesmente compõem o quadro, às vezes cintilante, mas quase sempre, superficial das aparências. É fundamental não ser mentiroso consigo mesmo para não o ser com os outros.
Viver bem é viver coerentemente e em paz com nós mesmos. É poder olhar altivo nos olhos do próximo, sem constrangimento ou culpa; é acertar no equilíbrio entre a teoria e a prática; encontrar a justa medida da nossa existência, considerando nossa missão de homens e mulheres nesse mundo que nos é dado. Fernando Pessoa, ainda em 1907, já escrevia: Nunca desistir nem recuar do propósito de fazer bem à humanidade; nunca esquecer os sofrimentos e as dores humanas. Assim, é possível experimentar certa realização pessoal, alguma dose de felicidade.
Mas, caro leitor, não se iluda: sustentar com exemplos as palavras tem um custo, em qualquer tempo e em qualquer lugar, principalmente, quando essa postura é assumida por homens depositários de Boas Novas, em cenários que mais tendem a conformar, conservar valores do que a transformar, revolucionar.
Seguindo o filme, passo a falar agora de duas figuras históricas e verdadeiras que, felizmente, sobreviveram, apesar de tudo. São os nossos principais aniversariantes do mês.
O primeiro, apesar de ter sido sepultado há quase dois mil anos, renasce a cada vinte e cinco de dezembro. Não posso afirmar, então, se a festa é de seu aniversário ou renascimento.
Homem nascido na Judéia, região existente entre o mar Morto e o mar Mediterrâneo, - no mesmo lugar onde brigam até hoje Israelitas, Palestinos e outros grupos fundamentalistas- passou a maior parte da sua vida em Nazaré, na Galiléia, uma região do norte de Israel, onde também ocorreu a sua transfiguração. Como esta crônica não pretende abordar o lado místico do Filho de Deus, apenas deixo registrado que os livros dos Evangelhos tratam de seus 35 milagres e que o primeiro deles teria ocorrido em Caná, durante uma festa de casamento, quando Ele transformou água em vinho, para atender aos convivas. Pouco depois, no lago de Genesaré, encheu em profusão a rede dos pescadores(Simão e Pedro) de peixes, quase fazendo o barco afundar. Houve também a multiplicação dos cinco pães e dois peixes para servir de alimento a milhares de homens, mulheres e crianças pobres; Isso sem contar a cura de cegos e doentes e o ressuscitamento de Lázaro que havia morrido já há quatro dias. Em todos os casos, é sabido que sua obra foi feita para demonstrar o amor e a misericórdia de Deus.
Já a ética do Jesus histórico estava baseada na defesa da vida em sua plenitude; vida que seria um dom de Deus, portanto, direito de todos, sem discriminação. Assim, os homens seriam iguais em dignidade e criados à imagem e semelhança do Senhor. Se naquela época alguns eram mais iguais do que outros, seria em decorrência da injustiça social que grassava no Império Romano. Pregando e dando exemplos de humildade, lavou os pés de seus discípulos, lembrando que a morada de Deus era o coração de cada um. Fez sua clara opção preferencial pelos pobres, marginalizados e enfermos. Era o ungido, o Jesus de Nazaré.
O outro homenageado nesta crônica completou cem anos no último dia quinze de dezembro. Seu nome, Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares, arquiteto renomado e também defensor de uma sociedade sem desigualdades. Importantes são a família, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar, não se cansa de repetir em suas entrevistas. No seu livro “ Minha Arquitetura”, fala com orgulho de seu avô que, embora tivesse aposentado como Ministro do Supremo Tribunal Federal, morreu pobre, despossuído. Por defender idéias comunistas, teve que se exilar na França, na década de 1960, durante o regime militar no Brasil. Lá, trabalhou para o governo argelino, desenhando a Universidade de Constantine e depois a mesquita de Argel. Criou também a sede do Partido Comunista Francês e o prédio da Editora Mondadore, na Itália.
Antes, já havia projetado várias construções na criação de Brasília, no final da década de 1950 no governo Juscelino Kubitschek, cujo plano urbanístico foi feito por Lúcio Costa; dentre elas se destacam o Palácio do Planalto, da Alvorada, o Congresso Nacional. Niemeyer manifesta, sempre que pode, a sua insatisfação com os rumos tomados pela Capital Federal, construída, originalmente, para abrigar os trabalhadores, sede do governo e servidores públicos.
Projetou para Cataguases, ainda na década de quarenta do século passado, o prédio do Colégio de Cataguases, na granjaria e a casa do escritor Francisco Inácio Peixoto, por quem foi contratado. O projeto da casa foi entregue em 1940 e o Colégio concluído em 1947.
Reconhecido mundialmente pelo seu trabalho na arquitetura, Niemayer é não menos importante pelas posições políticas que adotou ao longo de sua vida. Jamais se curvou aos regimes autoritários ou abriu mão de defender e lutar, como filiado de seu partido e ativista político, pelo advento de uma sociedade igualitária, sem explorados ou exploradores. Como o Jesus histórico, defende a dádiva de uma vida plena e abundante para todos, homens e mulheres.
Os dois – um Místico e outro Materialista – com a mesma boa vontade, almejam a sociedade fundada nos ideais de fraternidade e solidariedade que os próprios homens, com seus Sistemas e vícios, ao longo de milênios, ainda não foram capazes de construir.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A dimensão poética e a cidade
A cidade, se olhada a fundo e ao largo, torna-se objeto de admiração, satisfação pessoal, ideal de nossas vidas. Olhemos os traçados das ruas, seus aspectos paisagísticos, sua arquitetura com seus recados históricos, seres humanos e animais. Depois, para ver melhor, é importante imergir nos meandros do imaginário popular. Navegar é preciso para romper com o primarismo das pedras amontoadas e a natureza em estado bruto: árvores, rios, morros, céu e gente, zanzando de um lado ao outro, tudo matéria pura e simples. Subjetivar, embarcar na dimensão poética das coisas, ver além do que a vista alcança, abarcar o mundo. A vida não é só isso que se vê, é um pouco mais!
Algumas pessoas – singulares - se destacam pela originalidade, jeito-de-ser único, anormal, além da banalidade, da mesmice. Outras – plurais - materializam os personagens dos ficcionistas e reafirmam a velha máxima de que a vida imita a arte e a arte imita a vida. O grande mentecapto, personagem de Fernando Sabino e Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, passeiam de mãos dadas pelos altos e baixos de Cataguases. Tenho dito.
Redigi os dois parágrafos acima a partir de uma crônica que publiquei há tempos em um jornal – O Painel. Não me lembro em qual data. Sei que no texto tratei da existência de três personagens, dos quais volto a falar neste blog. Omito os nomes, mas afianço: trata-se de gente que faz a diferença, figuras instigantes, merecedoras de muitas palavras. Temos muitas outras, dignas de um foco narrativo, mas hoje viajo, novamente, na companhia dos meus três conhecidos amigos. Embarque comigo.
A primeiro é onipresente, ubíquo. Muito embora não se tenha notícia de que materialize nenhuma divindade, consegue estar em vários lugares ao mesmo tempo. Num sábado à noite foi visto numa quermese, a bordo do ônibus que levava dançantes e caçadores de aventuras amorosas para um baile de forró num município vizinho e também mediando uma barulhenta discussão política numa roda de carroceiros. Alguns exagerados ainda dão conta de que ele tenha sido visto na capela mortuária, apresentando suas condolências a uma família enlutada. Tinha aparência carregada, de dor sincera, conformando-se com o ambiente de perda do ente querido. Mas isso não é crível. Embora seja homem, é conhecido por seu apelido no feminino, – Toda. Figurinha fácil.
A segunda personagem é misteriosa e pode ser encontrada a qualquer momento em Cataguases. Basta esquecer os preconceitos de classe, cor, gênero e raça, como convém ao bom cidadão, e passar em visita aos botecos - nem tão ordinários assim - que circundam o centro da urbe. Não precisa ir muito longe, procure nas imediações da Praça Santa Rita e Rui Barbosa. Não a encontrando, desça pela ponte velha e dobre no sentido de Leopoldina. Não ande muito, pois ela nunca se embrenha pelo asfalto. Seu roteiro inclui, no máximo, uma passada no último estabelecimento da rua de pedras que bem pode ser um empório. Se, ainda assim, não localizá-la, tome o coletivo e desembarque no bairro Beira Rio. Volte experimentando, entre nos bares, espie. É uma mulher e permanece por duas, três, quatro e, se for conveniente, por mais horas sentada, bebendo cerveja e destilando discretos sorrisos aos passantes. É magra, pernas longilíneas, cabelos curtos, melindrosos, mãos de muitos anéis, usa sandálias bem ventiladas, bolsa e calça jeans que só chegam até as finas canelas. Nunca tem pressa pra nada nessa vida. Alto lá, não pense que a nossa “Papoula da Tarde” seja uma desclasificada. Não, ela trabalha de carteira assinada, paga IPTU, convive no dia-a-dia com gregos, troianos e italianos, vive bem integrada na comunidade e... nada deve a ninguém. Mas é nos ambientes dos bares que se reconhece por inteira: interioriza-se, encontra-se na sua subjetividade, consegue purgar os seus percalços afetivos, extrair os dolorosos calos do desamor, organizar seus entreveros mentais. Destaca-se no cenário e, inevitavelmente, atrai os carentes e perdidos, dos quais ouve os dramas com a atenção e paciência devidas – ou indevidas. Complacente, esforça-se por ser cordata com a argumentação de todos, preservando a harmonia do ambiente. Sofreu muito com a perda de um de seus diletos amigos, o professor Matosinho, a quem pedia conselhos para depois desmanchar-se num choro pungente. Assim, graças às sábias palavras do Mestre, muitas vezes, livrou-se de suas dores da alma, desabafou, purgou seus suplícios, reconciliou-se consigo mesma.
Tive notícias de que a terceira figura de que tratei no Painel mudou-se de Cataguases. Fiquei um tanto assim confuso com essa informação, até porque eu tinha lá as minhas dúvidas se ela realmente existia ou fora produto da minha imaginação. Se não existiu, como é que pode ter se transferido para outro lugar? Trata-se de um simples pescador que, no descer do sol, ia rio acima na busca dos peixes. Homem de corpo musculoso e negritude infinita, subia remando até uma certa Ilha do Horizonte e depois descia nas Águas da Meia-Noite, estacionando seu barco nas imediações do bairro Leonardo, nas pedras existentes no meio do Pomba. Ali, no virar do calendário, punha-se de pé e com as mãos em conchas no entorno da boca. Olhava para o céu e uivava, uivava, uivava, feito um lobo. Seu uivo, associado ao barulho intenso da cachoeira, produzia uma estranha magia, atraindo os peixes que pululavam à flor d´água, em reboliço, atracando-se uns aos outros. Era o momento de lançar a rede e encher a embarcação. Alguns jovens mais imaginativos que permaneciam até àquelas horas, observando o movimento do sobe-e-desce no bairro, diziam que o homem, no momento do ritual, passava por uma espécie de metamorfose: “Seu corpo ficava cheio de pelos, como um lobisomem!“ No entanto essa parte da história não pode ser confirmada, já que o nosso personagem só podia ser visto à distância e o escuro da noite não permitiria a observação humana dos detalhes. Por outro lado, é corrente a informação de que, durante o espetáculo, as nuvens deslocavam-se em movimentos circulares, cobrindo quase que totalmente a lua cheia, enegrecendo o ambiente. Uma força misteriosa agindo na natureza!
O real e o fantástico podem perfeitamente conviver em harmonia compondo a nossa existência. É preciso buscar também no campo imaterial o que a objetividade não nos oferece como possibilidade de vida. Nesse sentido, vale tudo no exercício da busca da felicidade. Não se realizam em sua humanidade os seres feito do frio barro, da crua materialidade, incapaz de produzir emoções, alegrias, Outros Sentimentos. Ademais, o concreto e o abstrato se entrecruzam e se completam. Nas ruas andam pessoas crentes, movidas pela fé no que não conseguem tocar, mensurar; nas igrejas reza-se encaminhando pedidos aos santos das causas impossíveis; na solidão das casas moram seres humanos que sonham e alimentam desejos na dureza do correr dos dias.
A vida levada objetivamente, no limite dos cinco sentidos, perde a poesia, afunda-se no fastio, na aridez dos corpos. Não revela seu encantamento.
A cidade, se olhada a fundo e ao largo, torna-se objeto de admiração, satisfação pessoal, ideal de nossas vidas. Olhemos os traçados das ruas, seus aspectos paisagísticos, sua arquitetura com seus recados históricos, seres humanos e animais. Depois, para ver melhor, é importante imergir nos meandros do imaginário popular. Navegar é preciso para romper com o primarismo das pedras amontoadas e a natureza em estado bruto: árvores, rios, morros, céu e gente, zanzando de um lado ao outro, tudo matéria pura e simples. Subjetivar, embarcar na dimensão poética das coisas, ver além do que a vista alcança, abarcar o mundo. A vida não é só isso que se vê, é um pouco mais!
Algumas pessoas – singulares - se destacam pela originalidade, jeito-de-ser único, anormal, além da banalidade, da mesmice. Outras – plurais - materializam os personagens dos ficcionistas e reafirmam a velha máxima de que a vida imita a arte e a arte imita a vida. O grande mentecapto, personagem de Fernando Sabino e Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, passeiam de mãos dadas pelos altos e baixos de Cataguases. Tenho dito.
Redigi os dois parágrafos acima a partir de uma crônica que publiquei há tempos em um jornal – O Painel. Não me lembro em qual data. Sei que no texto tratei da existência de três personagens, dos quais volto a falar neste blog. Omito os nomes, mas afianço: trata-se de gente que faz a diferença, figuras instigantes, merecedoras de muitas palavras. Temos muitas outras, dignas de um foco narrativo, mas hoje viajo, novamente, na companhia dos meus três conhecidos amigos. Embarque comigo.
A primeiro é onipresente, ubíquo. Muito embora não se tenha notícia de que materialize nenhuma divindade, consegue estar em vários lugares ao mesmo tempo. Num sábado à noite foi visto numa quermese, a bordo do ônibus que levava dançantes e caçadores de aventuras amorosas para um baile de forró num município vizinho e também mediando uma barulhenta discussão política numa roda de carroceiros. Alguns exagerados ainda dão conta de que ele tenha sido visto na capela mortuária, apresentando suas condolências a uma família enlutada. Tinha aparência carregada, de dor sincera, conformando-se com o ambiente de perda do ente querido. Mas isso não é crível. Embora seja homem, é conhecido por seu apelido no feminino, – Toda. Figurinha fácil.
A segunda personagem é misteriosa e pode ser encontrada a qualquer momento em Cataguases. Basta esquecer os preconceitos de classe, cor, gênero e raça, como convém ao bom cidadão, e passar em visita aos botecos - nem tão ordinários assim - que circundam o centro da urbe. Não precisa ir muito longe, procure nas imediações da Praça Santa Rita e Rui Barbosa. Não a encontrando, desça pela ponte velha e dobre no sentido de Leopoldina. Não ande muito, pois ela nunca se embrenha pelo asfalto. Seu roteiro inclui, no máximo, uma passada no último estabelecimento da rua de pedras que bem pode ser um empório. Se, ainda assim, não localizá-la, tome o coletivo e desembarque no bairro Beira Rio. Volte experimentando, entre nos bares, espie. É uma mulher e permanece por duas, três, quatro e, se for conveniente, por mais horas sentada, bebendo cerveja e destilando discretos sorrisos aos passantes. É magra, pernas longilíneas, cabelos curtos, melindrosos, mãos de muitos anéis, usa sandálias bem ventiladas, bolsa e calça jeans que só chegam até as finas canelas. Nunca tem pressa pra nada nessa vida. Alto lá, não pense que a nossa “Papoula da Tarde” seja uma desclasificada. Não, ela trabalha de carteira assinada, paga IPTU, convive no dia-a-dia com gregos, troianos e italianos, vive bem integrada na comunidade e... nada deve a ninguém. Mas é nos ambientes dos bares que se reconhece por inteira: interioriza-se, encontra-se na sua subjetividade, consegue purgar os seus percalços afetivos, extrair os dolorosos calos do desamor, organizar seus entreveros mentais. Destaca-se no cenário e, inevitavelmente, atrai os carentes e perdidos, dos quais ouve os dramas com a atenção e paciência devidas – ou indevidas. Complacente, esforça-se por ser cordata com a argumentação de todos, preservando a harmonia do ambiente. Sofreu muito com a perda de um de seus diletos amigos, o professor Matosinho, a quem pedia conselhos para depois desmanchar-se num choro pungente. Assim, graças às sábias palavras do Mestre, muitas vezes, livrou-se de suas dores da alma, desabafou, purgou seus suplícios, reconciliou-se consigo mesma.
Tive notícias de que a terceira figura de que tratei no Painel mudou-se de Cataguases. Fiquei um tanto assim confuso com essa informação, até porque eu tinha lá as minhas dúvidas se ela realmente existia ou fora produto da minha imaginação. Se não existiu, como é que pode ter se transferido para outro lugar? Trata-se de um simples pescador que, no descer do sol, ia rio acima na busca dos peixes. Homem de corpo musculoso e negritude infinita, subia remando até uma certa Ilha do Horizonte e depois descia nas Águas da Meia-Noite, estacionando seu barco nas imediações do bairro Leonardo, nas pedras existentes no meio do Pomba. Ali, no virar do calendário, punha-se de pé e com as mãos em conchas no entorno da boca. Olhava para o céu e uivava, uivava, uivava, feito um lobo. Seu uivo, associado ao barulho intenso da cachoeira, produzia uma estranha magia, atraindo os peixes que pululavam à flor d´água, em reboliço, atracando-se uns aos outros. Era o momento de lançar a rede e encher a embarcação. Alguns jovens mais imaginativos que permaneciam até àquelas horas, observando o movimento do sobe-e-desce no bairro, diziam que o homem, no momento do ritual, passava por uma espécie de metamorfose: “Seu corpo ficava cheio de pelos, como um lobisomem!“ No entanto essa parte da história não pode ser confirmada, já que o nosso personagem só podia ser visto à distância e o escuro da noite não permitiria a observação humana dos detalhes. Por outro lado, é corrente a informação de que, durante o espetáculo, as nuvens deslocavam-se em movimentos circulares, cobrindo quase que totalmente a lua cheia, enegrecendo o ambiente. Uma força misteriosa agindo na natureza!
O real e o fantástico podem perfeitamente conviver em harmonia compondo a nossa existência. É preciso buscar também no campo imaterial o que a objetividade não nos oferece como possibilidade de vida. Nesse sentido, vale tudo no exercício da busca da felicidade. Não se realizam em sua humanidade os seres feito do frio barro, da crua materialidade, incapaz de produzir emoções, alegrias, Outros Sentimentos. Ademais, o concreto e o abstrato se entrecruzam e se completam. Nas ruas andam pessoas crentes, movidas pela fé no que não conseguem tocar, mensurar; nas igrejas reza-se encaminhando pedidos aos santos das causas impossíveis; na solidão das casas moram seres humanos que sonham e alimentam desejos na dureza do correr dos dias.
A vida levada objetivamente, no limite dos cinco sentidos, perde a poesia, afunda-se no fastio, na aridez dos corpos. Não revela seu encantamento.
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