quinta-feira, 13 de novembro de 2008

ROBERTA LIMA E SEU DISCO DEFINITIVO


Uma beleza o disco da cataguasense Roberta Lima! Roberta é de família de músicos e não dá uma nota fora: manda ver, canta muito, não destoa, tem suingue, voz nasalada na medida ideal e muito domínio da arte do pentagrama. É portadora da carteirinha de sócia efetiva do seleto clube da música juizforana. E passa a régua na conta, acompanhada pelo parceiro e companheiro Dudu Viana, o nosso maestro, filho do Edinho da Guitarra: aquele mesmo, o dono da boa música nas noites da nossa urbe.
Em harmonia com os arranjos de Dudu, Roberta dá o show do primeiro ao último acorde, do princípio ao fim do disco. Começa com Rapaz de bem, samba de Johnny Alf, de 1953, um dos precursores da Bossa Nova; segue cantando em dueto com o guitarrista e cantor Ricardo Dinis, na canção How Will I Know, do cego e visionário Steve Wonder. Dinis, com sua voz semelhante à do astro, destila, junto com o solo de sua guitarra, um solfejo só possível aos músicos de alto nível.
Em Estate(B. Martino e B. Brighetti), Roberta corre o risco de levar a nocaute os fracos diante do amor, os susceptíveis a um samba dolente. Então, que se preparem os espíritos distraídos, os perdidos, aqules que se encharcam de poesia e “se rasgam” nas noites vadias, os arrebatados! Aviso também que, nessa faixa, o piano de Duda transporta Roberta - que canta num sedutor italiano - a um doce intimismo que nos atinge cheio nas vísceras. O solitário solo de sax de Walmer Carvalho, no andar da melodia também é de cortar a alma! Arre!
O disco traz ainda canções históricas, como Upa Neguinho, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, Summertime, de Gershwin e The Way You look Tonight, de Jerome David Kern. As duas últimas, só para causar frisson nos que gostam do bom jazz; Djavan comparece com sua já conhecida Milagreiro; Aldir Blanc e Moacir Luz exportam música do Rio para Minas e levantam a bola para Roberta marcar de placa no samba Paris, de Santos Dumont aos travestis.
Abro o parágrafo para falar do encerramento do disco. Nesse momento, Roberta se supera na interpretação, junto com o instrumental solo, da canção Spain, de um dos maiores do jazz norte-americano: Chick Corea. Sobre a obra, quem me dá a referência é o pianista e amigo, Aloísio Condé: “Há vários intérpretes (solo) da música de Joaquim Rodrigo, que faz parte do Concierto para Aranjuez, que veio a dar origem à espetacular Spain, de Chick Corea. Sei que Joaquim Rodrigo era cego desde os cinco anos e o Concierto é um canto de amor.” Dados históricos à parte, é importante registrar também a performance perfeita da turma da cozinha nos improvisos.
E por falar em cozinha, vamos aos créditos:Bruno Repsold, no contrabaixo; Renato Endrigo, na bateria; Dudu Viana, no piano e na produção musical; Pedro Araújo, na guitarra e Walmer Carvalho, no sax. Galera da pesada! Luciano Tavares deu conta do recado na técnica do som; Marcus Vinícius, o Marquim Banzai, criou o visual da capa e Roberta aparece passando em frente a um portal, deixando escapar furtivamente as cores das formas de seu vestido; cores que se metamofoseiam em um arranjo de uma planta que lembra claves musicais. Na contracapa, a cantora caminha por uma rua deserta e deixa para trás o arranjo como registro e presente por sua passagem, qualquer coisa de criação, o trigo do pão que alimenta e mantém acesa a chama da vida. No caso, pão que é arte musical.
Roberta Lima é só talento e já pode ocupar um lugar na galeria dos bons intérpretes. Seu disco nada fica a dever aos melhores trabalhos nacionais e internacionais disponíveis no mercardo fonográfico. Junto a Dudu Viana, lega ao público uma obra definitiva, daquelas que servirão como referência a estudiosos e diletantes da música. Pena que o seu disco não revele canções inéditas, de autores inéditos. A moça, com a força de sua interpretação e a beleza de sua voz, pode contribuir com a sua parte, na luta para tirar o país do fosso cultural em que se encontra. Os bons compositores estão aí, aguardando a hora de ver seus trabalhos virem a lume, chegarem ao público. Elis Regina fez isso, completando sua trajetória de sucesso e consumando o seu nome como a grande estrela de nossa música. Foi a Pimentinha quem revelou corajosamente nomes definitivos de nossa MPB, como Belchior, João Bosco, Renato Teixeira, entre outros. Esse também é o papel do artista: romper com a mesmice, com a pasmaceira, com a mediocridade geral. Roberta Lima já deu o primeiro passo, gravando o que há de bom, mas já posto para cantar. Agora, está na hora do garimpo, de revirar a terra que é sempre generosa, fecunda e repleta de preciosidades. Vamos lá, Roberta?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Zeca Junqueira no Teatro Serrador, no Rio


Soninha Diamante
Umas & Outras

A peça “Soninha Diamante, umas & outras” é composta por cinco esquetes que falam de amor, sexo, morte, poesia, massificação e alienação do Ser Humano, etc., tudo com humor e lirismo – e muita contundência. O formato das esquetes facilita o entendimento e o engajamento do público, apresentando personagens, ora tristes, ora engraçados, que certamente cativarão a platéia. O ritmo é cinematográfico.

Na primeira esquete, “Zé Legião do Brasil” caracteriza grande parte dos brasileiros (a maioria), que hoje enfrentam o problema angustiante do desemprego, às vezes resolvido (?) pelo sub-emprego ou pela informalidade. Fica claro que esse estado de coisas é causado principalmente pela informatização dos modos de produção. O humor permeia o texto, mas o alerta está lá: o que fazer com tanta gente desempregada? Ou pior, o que acabará fazendo tanta gente desempregada?!

A segunda esquete, “É-se, então?”, cruelmente densa e questionadora, remete ao teatro de Artaud, que nos avisa que o mundo pode desabar a qualquer momento sobre nossas cabeças. A idéia é levar a platéia à reflexão sobre a precariedade da vida socialmente “arrumada”, que é arrastada de roldão no curso da natureza – e às vezes colocada implacavelmente frente ao dilema da (in) existência de Deus.

“Debutei”, a terceira esquete, é um monólogo no qual o ator conversa e acaba brigando com sua imaginária namorada (inclusive levando uns tapas) logo após sair de uma sessão de cinema. Em evidência (além do humor), um tema atualíssimo: a bissexualidade.

Na quarta esquete, “Soninha Diamante” dá uma lição de resistência e de amor à vida com o seu diamante que não se apaga nunca e resiste à “adultice”, moléstia que, segundo o autor, acomete a maioria dos homens na idade da razão.

Na quinta esquete, “Créu”, predomina a crítica ao estresse a que estão sujeitos a maioria dos trabalhadores das grandes metrópoles (inclusive os de nível executivo), que esgotam suas vidas entre o trabalho e a cama – para dormir! O ritmo dessa esquete é estonteante para dar idéia de que não há escapatória. O personagem Floriano é um refém. O dueto dos radialistas da Rádio Esperança é a base de sustentação da esquete.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ilha do Horizonte por Manoel Hygino


ANTICANDIDATO (Publicado no Hoje em Dia, 29 SET 2008 )
Manoel Hygino dos Santos (*)
"lha do horizonte" este o mais recente livro de Vanderlei Pequeno, de Cataguases, com o qual demonstra ser grande e bom em um gênero que atrai muitos e consagra apenas alguns. Escrever crônica é dificultoso, principalmente para quem apenas deseja ocupar o espaço no jornal. Os cronistas cá da casa mostram talento e competência, indispensáveis ao bom autor desse tipo de escrito.Vanderlei não é marinheiro de primeira viagem. Três outros livros já saíram de sua lavra. É, ademais, caracterizada sua produção pelo bom humor, tanto quanto pelo lirismo, pelas expressões de solidariedade. Os temas aparentemente banais de nosso cotidiano ganham grandeza.Aliás, o prefaciador adverte exatamente pela maneira de ser e escrever desse autor de Cataguases, que chega aos 51 anos. Antônio Jaime Soares observa: "Crônicas bem-humoradas, como que escritas com aquele sorriso que lhe é peculiar. Contudo, um humor até certo ponto permeado por certa angústia, por exemplo, diante da perda de pessoas queridas, o que leva sua escrita a roçar a atmosfera mais densa do ensaio. Entretanto, ele afirma: "Faço tais ilações sem a pretensão de tornar meu texto acadêmico".O autor observa nesse volume, editado pela Cata Letras, que não se trata de crônicas inéditas, pois publicadas em diversos jornais, a partir de 2002. Este aspecto me parece fundamental à conceituação que se faça dos textos. Eles são perfeitamente moldados ao tempo em que vivemos, os fatos e personagens estão por aí, são vividos e vívidos.A política não escapa à verve de Vanderlei, nem os intelectuais, os artistas, os carroceiros, as mulheres de rua, os campos de futebol. Todos estão na galeria de seus "dramatis persone".São 2 8 criações, que não merecem qualquer reparo. O autor tem noção de escrever, bem, com aquelas idéias matrizes -de princípio, meio e fim. É de uma linguagem acessível, sem ser vulgar; de vocabulário sem adornos desnecessários.Como estamos em tempo eleitoral, recorro a uma das crônicas. O autor conta que, lá pelo ano 2004, apareceu um candidato a vereador na periferia da cidade. Tinha chance de alcançar a edilidade, pois era correto como cuidarão e oferecia um programa de atuação, se escolhido fosse.Em reunião com o eleitorado, abriu-se com toda sinceridade. Explicava que voto não se vendia ou se comprava, dava-se por motivo superior. Condenou o clientelismo, referindo-se à boa prática da vereança.Lembrou os candidatos oportunistas, prestadores de serviços gratuitos, de fornecedores de agasalhos, roupas etc. Alertou que o verdadeiro vereador é aquele que se preocupa com a fiscalização das contas do prefeito: que estuda, idealiza, disc ute, vota e aprova boas leis. Ensinou que era preciso melhorar a vida dos mais carentes, ajudar a organizar politicamente a cidade, eliminar a exclusão social.Veio o dia do pleito. O candidato recebeu seis votos: um do irmão, outro da cunhada e quatro dos sobrinhos. Uma balzaquiana, após ouvir o pensamento do candidato, justificara-se:- Vê lá se eu vou votar num homem desse!

terça-feira, 9 de setembro de 2008


O Mistério de uma Pincelada


Imergir no universo do artista é perigoso tal é a individualidade de cada um. Portanto, nesta matéria, me limitarei a fazer algumas breves considerações sobre o trabalho de Ady Resende, ao meu ver, um ícone de minha geração... falar de nossos ídolos é complicado, temerário.

Quantos ao longo do tempo não passamos por sua sala de aula e guardamos em nós, graças ao seu dedicado trabalho de educador, os conhecimentos sobre artes?

Ady andou sumido por opção pessoal, mas agora ressurge com uma mostra de seus trabalhos. A exposição teve início em agosto e vai até meados de setembro no Instituto Francisca de Souza Peixoto. Pena que não tenha trazido a lume suas criações inéditas.

Ady Resende me lembra os Impressionistas, com suas lutas e desavenças, suas diferenças entre si e com a sociedade; Ady me lembra Camille Pissaro - um senhor de certa idade e de conhecimento artístico fecundo, sempre pronto a atender os amigos Monet, Cezzane, entre outros. Com Ady não é diferente :quando o assunto é arte, há sempre de sua parte, a disposição para uma boa prosa!

Um homem simples no seu mundo, dono de pinceladas bem acabadas, com destaque para a preocupação impar com as cores. “Os artistas hoje não querem mais misturar as tintas”, observa. Isso demonstra conhecimento, palavras de quem descarta os modismos e acredita em si mesmo como criador.

Uma das características do Impressionismo é a busca do belo mas, nas telas de Ady predomina o mistério, deixado ali propositalmente, revelando a influência do Surrealismo(o sonho, o irreal de Breton ou Dali). Nosso artista não fecha as portas de sua criação nem mesmo para o expressionismo (Munch com sua solidão) quando pinta figuras , alongadas, enigmáticas, solitárias, numa busca desigual dentro de si: um mundo real ou não, podendo ser da figura, do quadro como um todo ou do próprio artista. O importante é que a obra faz com que o espectador observe com toda a estranheza no olhar, sem fugir de si mesmo e pense, pense muito. O mais interessante é que as telas do mestre são construídas com a delicadeza das cores em pinceladas sutis, sobre temas que enlevam e fazem-nos mais humanos.

Conhecendo as obras de Ady Resende, com certeza você também irá conhecer o homem contido em cada figura, em cada cena descrita pela forma, cor, e pelos pensamentos ali traduzidos. Como bem diz o nosso professor: “numa obra tudo tem que estar no lugar certo, mas deixando transparecer sempre o mistério das coisas, do mundo, para não perder a graça, o nome de arte.”
Assim é Ady Resende.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

The End para os nossos sonhos? -Zeca Junqueira



Acredito que Vanderlei Pequeno é hoje o mais interessante escriba de (sobre) Cataguases. Ele mexe e remexe na cultura popular, que é a que de fato dá identidade e faz a história de uma cidade – ou pelo menos escreve os seus melhores capítulos. Se juntarmos tudo que ele produziu até agora, teremos um belo painel dos acontecimentos mais lúdicos da cidade. Muita gente boa que pintou e bordou por aí, muito da memória de Cataguases, com seus mineiríssimos casos e causos, está salvo pelo registro do nosso bravo cronista – agora atacando também no vídeo, junto com o músico Emanuel(Aero)Messias, com seu belo trabalho de entrevistas filmadas com antigos craques da pesada do futebol Cataguasense, todos até então esquecidos.

Seus textos sempre mexem com a gente. Tem uma crônica intitulada Nas matinês do cinema do Nelo, no seu mais recente livro, Ilha do Horizonte, que me emocionou pra valer. Aquelas matinês nos anos 60 foram para muitos de nós uma deliciosa aventura de criança que vai durar a vida toda, foram um delírio em cima do delírio que era a nossa infância naquele “tempo da paz e da benção, naquele tempo em que andávamos pela tarde e entendíamos a luz”.

Tem outra nesse livro que também me balançou: em Duas Marias e uma Luíza, ele conta sobre a amizade entre sua mãe e uma vizinha: “Meu pai instalou um portão na divisa de nossas casas, evitando que o muro existente impusesse qualquer obstáculo na convivência entre as duas famílias. E assim foi até os últimos dias de minha mãe, dona Conceição”...Que tempo bom, Vanderlei, quando seu pai, seu Dorico, não fazia versos pregando a derrubada de muros, fazia logo um buraco no dito cujo, quem quisesse que atravessasse, e viva a amizade!

Dona Maria, Dona Conceição Seu Dorico, todos já encantados!, aproveitemos então o portão aberto no tempo por você e entremos no cinema do Nelo para nos (re) encantarmos novamente: sua crônica resgata momentos ímpares, como aqueles em que achávamos dentro do cinema pedaços de fitas com cenas proibidas que nos eram cortadas, cenas que como sonhos cristalizados iam direto da tela para o fundo dos nossos bolsos, como o da troca de gibis antes da sessão, na porta do cinema (eu me amarrava nos do Kid Colt), como o momento em que éramos chamados à “saliência” pelas imagens das musas que você tão bem recordou: Brigitte Bardot, Gina Lollobrigida, Rossana Podestá, Sofia Loren – faltou citar a Suzane Pleshett (o lourinho Troy Donahue dava trabalho à libido das meninas) e outras tentações que inspiravam nossas fantasias num tempo em que era bom transgredir, mesmo sob a ameaça de que cresceria pelos nas palmas das mãos dos onanistas mais empedernidos.

Apagavam-se as luzes (elas davam uma piscadinha antes, lembra?), explodiam gritos e assovios, e tome os faroestes do Audie Murphy, John Wayne e Gregory Peck, os capa & espada (Scaramouche!), as gargalhadas com Charlie Chaplin, Cantiflas, os três Patetas, Norman, Oscarito e Grande Otelo, a tensão com 007, Flint e Phantomas, o tesão com as musas já citadas, os filmes-cabeça - o nouvelle vague, o “cinema novo” (que pra nós era mesmo o Cine Edgard) trazendo o vanguardista doido Glauber Rocha, ninguém entendia nada, mas assistíamos todos, até sermos brindados ao longo desse desfile de belas imagens com o estilo arrebatador de Sérgio Leone, que segundo o crítico Richard Schiekel, transformou (em parceria com Ennio Morricone), seus westerns em ópera, alternando grandes trechos sinfônicos e coro (as paisagens amplas e profundas que marcam seus filmes) a belas árias (os closes). Clint Eastwood, o protagonista da trilogia do homem sem nome, é hoje um dos mais geniais atores e diretores hollywoodianos. Quanta arte víamos, quanta “arte” fazíamos!

Outra bela lembrança na sua crônica são as nossas primeiras investidas adolescentes sobre as meninas da Praça Rui Barbosa, quando elas passaram a nos atraiar mais do que as sessões do cinema do Seu Nelo. Como eram singelas, meu Deus!, por onde andam aquelas meninas?, todas tão belas em seu florescer, que durava mais naquele tempo, espero que não tenham ficado feias, que não tenham desistido, nenhuma delas, torço para que não tenham se tornado infelizes porque frustraram seus amores e seus sonhos.

Negociar com o Seu Nelo o ingresso mais barato depois que o filme já havia começado foi prática duradoura, como você conta, e quando não dava para negociar nada porque estávamos completamente lisos, o caminho era mesmo por baixo, lá pela Avenida Astolfo Dutra, onde pulávamos o muro e entrávamos pela fábrica de macarrão até chegarmos ao cinema. Às vezes o vigia ou o “cicatriz” nos pilhavam e era uma correria desesperada de volta pela fábrica para escaparmos do vigia, que era mau de verdade e esfolaria quem fosse capturado. Aqueles feitos valiam por um filme de suspense do Hitchcock! Mas a marcha do progresso é avassaladora e você também evoca tristes lembranças, como a estréia nas telas grandes do cinema pornô e o fechamento do cinema do Seu Nelo, causado principalmente pela chegada do vídeo-cassete. Nessa altura, muitos de nós já havíamos partido para outras cidades, apresentando os primeiros sintomas de adultice, moléstia grave que acomete os homens na idade da razão.

Viemos longe, estamos em 2008, e agora, “aonde vamos essa noite, Walt Whitman?”. Talvez a um Cine Magazine qualquer, num shopping solitariamente lotado, ou acabaremos sentados na sala de casa diante de uma tela fria de TV assistindo um filme em DVD, com gente passando pra lá e pra cá, acendendo luzes, e nós ali, às vezes de pijamas, sem pedaços de fita no fundo do bolso e sem a praça a nos esperar após a sessão, com tudo de bom que ela nos oferecia. E o que é ainda mais doloroso: nessa sessão doméstica de cinema onde tudo é bomba, entre um bocejo e outro, não percebemos que largamos a mão da nossa melhor namorada, que está ali ao nosso lado, ela que veio conosco de longe, lá do escurinho do cinema, não percebemos que pouco a pouco vamos nos cegando com a luz estourada de nossas salas-de-estar e deixando de enxergar um ao outro.
Cinema do Seu Nelo, Cine Machado, Cinema Paradiso!, onde outrora retumbaram hinos, estamos órfãos de nossos heróis, de nossas praças, de nossos velhos amigos das matinês, de muitas de nossas meninas, de nossos cinemas de sonhos que hoje, como disse o cronista Zé Antônio Pereira em uma de suas tiradas geniais, estão quase todos nas mãos da Universal, que não é Pictures, e onde se reza a tótens e cujo ingresso nas sessões infernais de descarrego custa os olhos da cara (ou da alma?).

Ainda há tempo para um filme qualquer de amor ou de aventura, para um beijo na namorada com trilha sonora (quem sabe Sounds of Silence?), ainda há tempo para um pedaço de fita escorrer para o fundo do bolso das nossas calças, agora compridas demais, ainda há algum ingresso sobrando para nós ou alguém disposto a negociar conosco uma entrada meio atrasada para uma última sessão de cinema?

Vanderlei Pequeno, escriba da Cataguases da minha saudade, ainda há algum lampejo de criança em nós, ainda há algum arroubo que nos faça esquecer a adultice e trilhar, já que a porta não cede, o caminho por baixo em busca de sonhos, mesmo com medo de que os vigias do nada nos peguem e que o caminho nos leve a lugar nenhum?

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quarta-feira, 9 de julho de 2008

Espaço Aberto para Emanuel Medeiros

POR QUE ESCREVEMOS?


Começamos escrevendo para viver e acabamos escrevendo para não morrer.

Para quem edifica palavras mal rompe a aurora, escrever é inadiável e urgente, mesmo que nada externamente nos obrigue a isso. Mas a necessidade interna é visceral, orgânica, chama e fogo, flecha, algo colado à pele.

Não conseguimos escapar desse apelo.

Escrevemos para perdurar, para vencer a poeira do tempo, para despistar a morte, para regar nossos fantasmas e (por que não?), para amar e ser amado.

A literatura é o refúgio da sinceridade num mundo de pose.

“A literatura é um apelo de fogo, onde mora meu desespero, a minha inquietação e o meu paraíso”, escreveu alguém.

Eu sei: tento escrever um hino de amor à palavra.

Qual a maior viagem (interior) que podemos fazer, senão aquela que é um mergulho no livro, nesta criação de outros mundos, nessa peregrinação às áfricas interiores?

“Se o mundo dos objetos palpáveis e vida prática, não é mais real que o mundo das ficções, dos sonhos e dos labirintos, então pode ser que o autor de artifícios verbais tenha mais direito à condição de demiurgo que qualquer outro candidato”, escreveu Samuel Titan Jr., falando sobre Borges..

Hoje, a realidade chamada virtual fica sendo mais importante que o humano propriamente dito.

Uma personalidade não aparece porque é boa, mas é boa porque aparece.

Vivemos uma mudança de época e não uma época de mudanças.

Ou está inapelavelmente decretado que não há nada mais a fazer, que o destino já rabiscou todos os destinos?

Queremos um modelo de consumidores ou de cidadãos?

Aceita-se passivamente um mundo onde são as coisas que comandam e não os valores.
Queremos pessoas abúlicas, inertes, numa globalização onde impera a uniformidade e não a igualdade?

A literatura é um sonho do eterno. Sua morte tem sido decretada diariamente.

Mas por que ela continua tão viva?

Pois há dentro do homem uma sede de infinito que nenhum modelo meramente mercantil pode saciar.
Emanuel Medeiros é escritor

sábado, 21 de junho de 2008

Espaço Aberto para Zeca Junqueira


“Sejam realistas. Peçam o impossível!”

O jornal O Globo do dia 18/05 (domingo) dedicou nada menos que nove páginas do seu Segundo Caderno a falar de 1968, ano-chave da contracultura no mundo. Passaram-se 40 anos do ápice do movimento que queria derrubar o establishment a golpes de arte. Aonde chegamos? “A contestação já é parte do sistema, as pessoas não se reúnem mais, o mundo se globalizou, Deus está morto e salve-se quem puder”, responde lá o jornalista Toninho Vaz, autor das biografias de Torquato Neto (o Anjo Torto) e Paulo Leminsk (para o qual “morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma”).

Ao ler avidamente a matéria, lembrei de outra, “Sobriedade demais”, da colunista Martha Medeiros, publicada na Revista O Globo de 16/09/2007, que me surpreendeu então como uma alvissareira voz no meio do silêncio produzido pela falência de tantas utopias. O ano de 1968 esfumaçou-se, perdemos nossas convicções e a maioria de nós mudou o tom e é transmissora passiva de ruídos de coisas geladas, mecanizadas, chipadas, vazias de tudo para garantir a aceitação incontestável do reinado do bezerro de ouro. Essa maioria é composta de arautos do nada.

Martha cita oportunamente Hemingway, Bukowski, Dylan Thomas e cobra de si mesma o seu quinhão de desatino, o seu pileque por trás do texto, o LP arranhado soltando jazz de uma antiga vitrola enquanto uma velha e imaginária Remington substitui o computador e importuna tamborilando em voz alta o que é preciso tamborilar: dor, esperança, desespero, rebeldia, amor – arte!, e que se dane depois a ressaca, depois a gente acerta.

Sabiamente, Martha diz que está na hora de vasculharmos a cesta de papéis em busca do rascunho jogado fora só porque é rascunho - será que a vida rigorosamente passada a limpo não se traduz mesmo em rascunho, em aspereza, em intensidade proporcional ao sangue que ela contém? “Os escritores deste novo século já não se suicidam, a Sylvia Plath de hoje faz mamografia, a nova Ana Cristina Cesar faz pilates, o William Burroughs do século XXI precisa parar de beber por recomendação médica”, diz a colunista.
Esse súbito engasgo que Martha Medeiros sofre e nos repassa numa revista light de domingo, facilmente digerível com o familiar almoço do dia, me instiga botar a cara à mostra, já que “no meio desse quadro diluidor...há uma faixa de pessoas com fome de transcendência, porque a vida é pouca e nem todos agüentam o nu e o cru da falsa realidade dos reality shows”, como aponta o poeta Ferreira Gullar, em entrevista concedida ao Globo que fala de 1968.

Insurgir-se nesse “admirável mundo novo” e correr o alto risco de ser jogado como um rascunho pornográfico na lata de lixo da “arte” ou continuar fazendo mééééééé entre o grande rebanho de “artistas” pós-tudo enquanto o mundo desaba infecundo sobre nossas cabeças disciplinadas e vazias? Eis o dilema dos verdadeiros criadores postos “no paredão” pela assustadora capacidade de banalização da sociedade do espetáculo.
Que saudade de 1968, 1969, 1970!...
Segue o meu manifesto (atualíssimo!) pela passagem dos 40 anos daquela data, quando os hippies e a nossa geração do desbunde ousaram colocar a imaginação no poder.
Make love, not war.

Arte é rebelião e gozo
A arte é essencialmente transgressora e seu principal atributo
é promover o inconformismo e a não-aceitação de injustiças.
Arte é anti-ambiente, é releitura e reescritura do mundo,
inclusive no plano social.
A experiência da arte é a experiência da beleza e a beleza
liberta e traz descanso.
A arte não é moralista, é ética, portanto intuitiva, e
só pode ser provada por homens verdadeiramente livres.
Os que estão aprisionados e pela arte são tocados
passam a enxergar as grades e os muros que os cerceiam e
contra eles põem-se a obrar.
A arte exposta nos museus oficiais para a morna gente
mais preocupada com os costumes do que com a liberdade,
mais ciosa com a moralidade do que com a dignidade,
estaria mais adequada e surtiria mais efeito nos corredores
das penitenciárias, nos prostíbulos e
nos guetos onde a miséria, a loucura e o crime
não têm contraponto.
Van Gogh no túnel escuro e sem esperança das prisões
seria janela ensolarada por onde fugiriam todos os olhares.
Ao amanhecer e ao anoitecer, todas as prisões do mundo
deveriam tocar Mozart, Mahler, Beethoven para aliviar
as mentes atormentadas.
Pela música, os corpos continuariam com os carcereiros,
as almas, com a paz.
Nas igrejas não deveria haver santos de conveniência
mudos nos altares, mas poetas em carne e osso
bradando poesia no lugar da cantilena dos padres.
E nos hospitais, nos tribunais, em todas as casas de
punições e dores
a bondade, suprema obra de arte,
deveria estar sendo escrita, pintada e orquestrada,
exercida sem parar em todas as cores, letras e sons.
O verdadeiro artista caminha descalço sobre brasas e
delas só escapa para prosseguir sobre o fio da navalha
- sempre descalço.
A arte não é propriedade de ninguém e
só existe como rebelião e gozo.
O resto é rendição e conformismo.